terça-feira, 20 de janeiro de 2009

(Antes e depois...) Ainda a "Praia do dólar"...

... de que se fala mais abaixo.
Ora veja como ela era, na maré vazia, há cerca de 40 anos! Foto do Engº Joaquim Carvalho, que fez serviço militar em Timor Leste. Note-se como era a estrada... E como a vegetação era um pouco mais densa.


Ora suponha...

... que vive numa cidade de Portugal e que tem um vizinho que sabe que volta e meia, meia volta vai a Timor Leste.
Suponha também que nunca teve muita oportunidade para conversar com ele e saber das suas "venturas e desventuras" por terras tão longínquas.
Agora suponha que chega a sua vez de, por motivos profissionais, ir, durante cerca de dois meses, a Timor Leste.
Mas há mais: suponha igualmente que os seus colegas que já estão no terreno o desafiam um dia para dar uma volta pela "montanha" e ir visitar o "Velho Serra", o português "boa praça" que vive há mais anos em Timor sem nunca sair de lá.
Agora suponha que chega a casa dele, quase no cucuruto das montanhas de Maubara e, depois dos cumprimentos da praxe, se entretém a ver a "galeria de arte" exposta na parede e constituída por uma colecção de quadros com fotografias das mais variadas pessoas que por lá passaram.
Finalmente suponha que de repente dá com uma em que está... o seu vizinho de baixo!

O "Vô" Serra ao lado do "famoso" quadro...

Com que cara é que você ficava, hem?!... :-). Certamente com a boca aberta e a perguntar-se "Credo! Como é possível estar quase a 20 mil kms de casa e vir dar com a foto do meu vizinho aqui?!..."
Pois foi isso mesmo que aconteceu ao meu vizinho de cima há cerca de duas semanas atrás!... :-)

A explicação é "simples": sem ter ligado "a bota com a perdigota" foi parar a casa do meu "Vô Serra"!... Que lhe explicou que eu era o seu parente (parente mas não neto) que um dia "pipocou" lá por casa sem que, até então, soubessem um do outro!
Mas a "estória" desse encontro é para outra ocasião...

Uma mensagem de paz... ou "da conveniência de saber escrever inglês" :-)


Rs rs rs rs!... :-)

PS - para quem domina mal a língua dos "bifes", dos "camones", dos "aussies" e dos "kiwis", "piss" é uma das duas coisas para que precisamos de saber qual a parte de trás de uma árvore...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Que nem de propósito...

A propósito da entrada abaixo sobre a questão linguística lembrei-me desta foto recebida de uma amiga minha (Alô Afeganistão!...), em tempos sediada em Maliana, que me parece deliciosa: "A aula de português"


PS: Desculpe a "pirataria", Ana! Mas uma delícia destas não poderia ficar só para si... :-)

"Vitória de Setúbal de Timor" !

Nado e criado em Setúbal, achei curioso quando há alguns anos atrás, ao consultar um mapa de Dili, dei com a referência a uma "Rua de Setúbal".
Já tinha dado com uma em Maputo mas não fazia ideia que no outro lado do mundo havia de encontrar outra.
Claro que não descansei enquanto não fui até lá (na zona de Colmera; primeira rua à direita após o cruzamento de Colmera para quem segue para o "Obrigado Barracks") e foi então que descobri que não só existia, de facto, a rua como também que os seus moradores tinham criado, há muitos anos, o... "Vitória de Setúbal de Timor"!... Como diria o "nosso" Fernando Peça: e esta, hem?!...


Conversa daqui, conversa dacoli, cheguei à fala com um dos dirigentes do clube que me contou a história da rua e do "Vitória de Setúbal" local.
Quanto à rua, parece que terá nascido nos anos 50-60 por iniciativa de alguns militares do Regimento de Infantaria 11, então existente em Setúbal, que lá estiveram a cumprir o serviço militar.
Quanto ao clube, nasceu logo depois e reúne essencialmente, como jogadores, "moçoilos" residentes na rua ou nos seus arredores. Um dos equipamentos que usam, "de gala", foi oferecido há alguns anos pelo Vitória de Setúbal --- curiosamente e mais uma vez por iniciativa de um major português residente na cidade e que diligenciou no sentido de o clube da cidade do Sado lhes oferecer os equipamentos.
Um dos desgostos que tinham era o de não terem uma bandeira do Vitória de Setúbal "pai". Lá arranjei uma e ofereci-lhes.


As coisas que nos acontecem...

Outra perspectiva...

... da "Praia do dólar". Esta foto foi tirada do alto da curva que a precede e que se vê na ponta da nesga de terra que aparece na foto abaixo. Esta e o pequeno "promontório" que se vê nesta foto delimitam a praia, separando-a de outras e que se vêm na foto do Google.

Que praias!... Que marzão!...

Mais um exemplo das praias de Timor Leste. Neste caso a conhecida, pelos "internacionais", como "Praia do dólar", entre Metinaro e Manatuto, a cerca de 40 kms a leste de Dili.
A designação deriva do facto de nos primeiros tempos da presença de "internacionais" em Timor, depois da libertação da Indonésia, miúdos da região terem instalado umas "cancelas" na entrada da praia e cobrarem um dólar por cada carro que quisesse passar. Há vários anos que a cobrança cessou.

"Praia do dólar" em cima e sua localização no Google Earth, em baixo (ao meio da foto)


Na foto do Google nota-se, logo junto ao areal da praia, a barreira de coral que fica a descoberto quando está maré vazia. A praia é um dos locais mais utilizados para mergulho.
Timor Leste está considerado por quem sabe destas coisas como um dos melhores lugares do mundo para fazer mergulho de exploração subaquática (scuba diving ou mesmo só snorkel), até mesmo melhor que muitos lugares bem mais afamados.
São inúmeros os "internacionais" que se rendem ao desporto, havendo algumas empresas especializadas no apoio aos praticantes.
Para ver imagens do Timor Leste subaquático clique aqui e aqui.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Uma "estória" que mete a adopção do português como língua oficial

Estamos no início de Junho de 2001 e é o meu primeiro dia de trabalho no PNUD, para onde fui como parte do "pacote" da ajuda portuguesa para a elaboração do primeiro Relatório Nacional do Desenvolvimento Humano de Timor Leste --- que veio a ser publicado uma semana antes da independência, i.e., a 13 de Maio de 2002.
Como parte da "cerimónia de iniciação" os (agora) meus colegas (internacionais) convidaram-me para almoçarmos todos juntos num restaurante tailandês então muito em voga, ali para os lados do bairro do Farol.
Seríamos uns 10-12 colegas e a meu lado ficou uma norueguesa, simpática, agitada e loira como só as norueguesas são. Depois das apresentações e do "o que tens feito", etc, entrou-se em assuntos mais "profundos" e como na época se discutia a questão da língua oficial de Timor Leste, o comentário e a pergunta da norueguesa não tardaram: "Eu penso que não faz sentido Timor adoptar o português como língua oficial. A maior parte das pessoas não falam a língua e já há muitos que falam o indonésio. Além disso aqui na região seriam o único país a falar português. Por isso será muito mais útil se eles escolherem o indonésio ou, até, o inglês, já que o tetum não responde às necessidades do mundo moderno. E tu o que pensas sobre o assunto".
Porque penso mesmo que esse é assunto da exclusiva responsabilidade dos timorenses, não me competindo "dar palpites" sobre a sua política linguística, e porque não me apeteceu iniciar logo no primeiro dia uma discussão que não nos levaria a lado nenhum, respondi-lhe algo salomonicamente: "Eu não penso nada! Quem tem de pensar são os timorenses!". E para não deixar margem de manobra para o continuar da conversa sobre o assunto dei a "estocada" final: "Mas já agora, diz-me lá uma coisa: quais são os países que à volta da Noruega falam o norueguês?".
Nunca mais aquela alma me perguntou nada sobre o assunto... Uau!...

sábado, 17 de janeiro de 2009

"O livro das contradisoens": os porquês... (in English!... Com tradução abaixo)

The contradiction book: contradiction is what you see the most, even in your own soul, when you live here. Mountains falling abruptly into beaches; heat and cold; so many heritages in a tiny place. I've heard so many call this place 'rai ki'ak' (poor country), and yet there's so much around us here.

Beauty and pride in the Tetun verses sung on the beach by moonlight, celebrating Independence Day.

Timelessness fascination in the half-forgotten stories told by the women in woven blankets. Did you ever used a story to wrap yourself against the cold, in a chilly morning in the mountains?

Men and women: voice and drawings. In a Timorese village, women's voices can be silently heard in the stories woven through their hands.

Laughter and shadows, because a story has to be either comic or about ghosts to be worthy of praise here.

Pacific? Or Asia? Or a dream of its own, bringing together the wishful thoughts of so many who came here before us?

Timor is about loving the journey more than the destination. It is using every language and none, belonging to many places and yet claiming none as your own. If you were born to be a wanderer and your task in life is learning, tell stories and seek new paths, welcome home.

And, since we speak of contradictions, see the heights and the lowlands, the sea and the cold. Jaco and Ainaro, sundown in the East, sunrise in the West.

The beaches: Jaco Islet at the East tip of Timor

The mountains: Ainaro district, south of Dili

Sunrise in the West (Dili bay; "Praia dos Coqueiros")

Sunset in the East (Dili bay; Comoro beach)


TRADUÇÃO em português "acordado" :-)


O Livro das Contradições: contradição é o que você vê mais, até mesmo na sua própria alma, quando vive aqui. Montanhas caem abruptamente em praias; calor e frio; tantas heranças num lugar tão pequeno. Ouvi tantos chamarem este lugar 'rai ki'ak' (país pobre) e no entanto há tantas coisas à nossa volta.

Beleza e orgulho nos versos em Tetun cantados na praia ao luar celebrando o Dia da Independência.

Fascinação intemporal nas histórias meio-esquecidas contadas pelas mulheres enroladas nos seus 'tais' tecidos. Já alguma vez usou uma história para se embrulhar e proteger do frio numa manhã fria nas montanhas?

Homens e mulheres: voz e desenhos. Numa aldeia timorense as vozes das mulheres podem ser ouvidas silenciosamente em histórias tecidas pelas suas mãos.

Risadas e sombras, porque uma história tem que ser ou cómica ou sobre fantasmas para aqui merecer um elogio.

Pacífico? Ou Ásia? Ou um sonho em si mesmo, amalgamando os desejos do pensamento de tantos que vieram antes de nós?

Timor é sobre amar a viagem mais do que o destino. É usar todas as línguas e nenhuma, pertencendo a muitos lugares mas ainda assim não reivindicando nenhum deles como seu. Se você nasceu para vaguear pelo mundo e a sua tarefa na vida é aprender, contar histórias e procurar novos caminhos, bem vindo a casa!

E já que falamos de contradições, veja as montanhas e as planícies, o mar e o frio. Jaco e Ainaro, o pôr-do-sol no Leste e o amanhecer no Oeste.

Mais fotos

Jardim da beira mar, frente ao Palácio do GovernoPescador de caça submarina com "espingarda" artesanal;
muitos destes pescadores são de Ataúro
Edifício ACAIT, onde está a Embaixada de Portugal, ao lado do Palácio do Governo, de que está separada pela Avª Bispo Medeiros
Certamente uma das melhores praias de Timor Leste: a de Baucau

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Primeira "estória" (era uma vez...)

Desde o ano "longínquo" de 2001, quis a vida que eu tivesse passado cerca de metade do tempo em Portugal e outra metade em Timor Leste.
A minha primeira estada mais prolongada no país foi em 2001 e 2002, período em que estive trabalhando para o PNUD, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
Durante esse tempo tive a oportunidade de lidar mais de perto com alguns colegas, internacionais e timorenses. Um destes era (é) um dos motoristas, o Sr. Lino.


Homem bom, de sorriso fácil, ficava satisfeito por poder exercitar o seu enferrujado (mas muito razoável) português ao falar comigo --- eu e a Rosa Valente éramos os únicos portugueses e lusófonos no pedaço, sendo a "língua de trabalho" o inglês.
Cerca de uma semana antes da despedida, em Fevereiro de 2002, o Sr. Lino veio ter comigo e com o ar meio encabulado que sempre tem, começou a contar-me um pouco da história da vida dele.
Fruto de uma relação entre um soldado português e de uma timorense "lá para os lados" de 1961, o pai ao regressar a Portugal quis trazer o "rebento" consigo mas o tio (materno) pôs como condição que o pai construísse uma casa para a mãe.
Por falta de tempo ou daquilo com que se compram os melões ou por outra razão a casa não foi construída e ele ficou com a mãe.
Até 1975, aquando da invasão indonésia, ainda havia uma carta para cá, outra carta para lá, e lá ia sabendo do pai. Só que na sequência da invasão teve de fugir com a mãe para as montanhas e quando regressaram a casa em que viviam tinha sido saqueada e queimada e lá se foi o endereço do pai. A partir daí a comunicação entre ele e a mãe, por um lado, e o pai, por outro, deixou de se fazer e ele perdeu o rasto do pai. Sabia apenas que o último endereço era de Pombal. Além do nome completo do pai, claro.
Depois de me contar isto pediu-me para, depois de regressar a Portugal, tentar saber se o pai era vivo ou morto pois ele gostava de saber dele. Afinal pai é pai, né?!... No entanto lá foi dizendo que calculava que fosse quase impossível pois amigos lhe tinham dito que só sabendo o endereço exacto é que tal seria possível.
Naturalmente acedi ao seu pedido mas, rapaz despachado, procurei resolver o assunto dali mesmo.
Foi assim que contactei pessoa amiga em Portugal e pedi-lhe que, através das informações telefónicas, tentasse saber o paradeiro do "desaparecido" pai do Lino. Bem dito, bem feito, no dia seguinte recebia a mensagem de e-mail com todos os pormenores do endereço e com o número de telefone. Esperei que se fizesse dia em Portugal e liguei para cá.
O pai do Sr. Lino confirmou a história toda e perguntado se via inconveniente em dar o contacto dele ao filho disse logo que não.
Gostava que vissem a cara do meu colega quando lhe disse, menos de 24h depois de ele me ter feito o pedido, que tinha descoberto pai e que já tinha falado com ele. Tudo isto acompanhado da entrega do papel com o número de telefone. A cara dele era um mito de alegria e de espanto. Alegria por saber que o pai estava bem e que poderia falar com ele, espanto por o "malai" ter conseguido em menos de 24h o que ele não conseguira (por razões compreensíveis) nos últimos 25 anos. Parece-me que estou a ver a cara dele a pensar "estes malais portugueses têm poderes milagrosos!...".
Passados dias realizaram uma festinha para a minha despedida. E lá estava o bom do Sr. Lino, sempre com o seu melhor sorriso e o ar meio encabulado.
Fui ter com ele e perguntei-lhe se já tinha telefonado ao pai, ao que ele me respondeu que não (pergunta tola a minha: um telefonema para Portugal para matar saudades do pai custar-lhe-ia uma fortuna... Claro que não tinha telefonado!)
Não lhe disse nada e saí da sala onde se realizava a festa e liguei para o pai, perguntando se estava disponível para falar com o filho, ao que me respondeu imediatamente que sim. Foi então que chamei o Sr. Lino e lhe disse que o pai estava ao telefone para falar com ele. Ao fim de 41 anos! Pela primeira vez na vida! Os olhos dele brilharam e o sorriso escancarou-se ainda mais. E por ali ficou na conversa com o pai cerca de 20 minutos. Estava feliz!

Mas a história não acaba aqui. Regresado a Portugal deparou-se-me a oportunidade de passar por casa do pai a quem entreguei um conjunto de fotos do filho e respectiva família (esposa e 7 filhos!...). Aproveitei para tirar fotos do pai e do meio-irmão (nascido posteriormente em Portugal). O curioso é que o pai tem --- coisa que deconhecia... --- mais família em Timor que em Portugal: um filho em cada lado mas quanto a netos os timorenses ganham por 7-1!
Essas fotos foram depois entregues ao Sr. Lino e hoje têm honras de lulik na parede da sala da casa dele.

Coisas da diáspora portuguesa...

Querem ver como os pôr-do-sol no bar da Fina são imperdíveis? Ora tomem!...

E este é só uma pequena amostra...

Fotos de Timor Leste

Tecendo um 'tais' no "mercado dos tais'

"Vô" Serra, beirão rijo, chegou em 1965 e nunca mais saiu de Timor

Praia da Areia Branca, a melhor de Dili e das melhores de Timor Leste
Os "pôr-do-sol" vistos do bar da Fina são imperdíveis!...

O "Palácio do Governo", sede do Governo do país. Situa-se na Praça Infande D. Henrique.
A administração indonésia não alterou as designações toponímicas existentes na altura da invasão (1975)

'Pró' que nos havia de dar!...

Dois malais --- um 'malai' e uma 'malaia'... --- vivem uma série de anos separados pela "Poça Grande" que é o Atlântico mas acabam por se encontrar à porta do paraíso.
'Papo' para cá, 'papo' para lá, tornam-se amigos, do tipo daqueles em que se um diz "mata" o outro diz "esfola"!... E quem beneficiou foram, nomeadamente e para além deles, os vendedores do 'Mercado dos Tais', já que ambos se perdem de amores facilmente pelo artesanato local...
De provocação em provocação entre ambos nasceu este blog com um nome um bocado para o esquisitinho!... Pois... Mas teve de ser assim porque o danado do Blogger não aceita acentos no título. A solução, já que íamos escrever sobre as nossas andanças em Timor Leste, foi mesmo... escrever em Tetum! E deu no que deu! "Contradisaun", "contradisoens". Nem mais!

Mas de que vamos falar/escrever aqui? Do tal paraíso, pois então! De Timor Leste, pois claro!
Qualquer de "nóis" tem algumas histórias para contar e muitas fotos para mostrar e por isso a resposta à pergunta "ao que vimos" é simples: vimos contar histórias --- na verdade, estórias... --- e mostrar fotos. Ah! E também pensar alto sobre alguns temas que nos parecem com interesse para Timor Leste.
Em que língua? O "malai", coitado, só escreve em português mas a "malaia" tornou-se uma "fera" em Tetum e se esta língua pipocar aqui já sabem que a culpa é dela.

E pronto: esclarecidos os quês e os porquês, a gente vê-se por aí... Até depois!