segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Das flores
A terra morre e renasce; passa pelas queimadas (naturais ou não) e revive como numa pintura impressionista, em pinceladas de verde sobre as montanhas.
Agora é o tempo do renascimento, a época das chuvas. A época em que as flores brotam por toda a parte. O tempo em que o céu se tinge de cinzento e o mar do marrom da terra arrastada pelas ribeiras. É também a época das chuvas fortes, que tudo arrastam. Das pontes que caem, das estradas cobertas de lama, dos deslizamentos de terra. A chuva traz vida, e também morte. E os agricultores quedam-se a esperar que as águas caiam sem violência, trazendo fartura em vez de fome. Um mundo à mercê dos elementos.
O meu jardim é um microcosmo dessa mudança. As chuvas vieram com força, e um dos canteiros foi literalmente levado pelas águas. As belas flores plantadas na época das secas, no ‘bailoron’ de Setembro, foram arrancadas pela raiz. As outras, em cantos mais protegidos, abriram-se numa explosão de botões brancos, amarelos, cor-de-rosa. E lá fui eu hoje, à procura de exemplares mais resistentes. Desde já algum tempo (acho que desde 2007, se me lembro bem) há uma pequena feira de plantas no Fomento, em Díli. Após alguma barganha com as vendedoras e conversa com as crianças delas, decido-me por levar dois vasos além dos que havia negociado. A mudança fez certa confusão às vendedoras, mas não a uma das crianças, que imediatamente apontou o preço correcto. Grande garoto!...
Esta é mais uma das mudanças que Timor trouxe para mim. Flores nunca foram um dos meus interesses, menos ainda a jardinagem. Nascida e criada numa terra onde a água é abundante e o verde das florestas invade até a maior das cidades, sempre vi as flores como um toque elegante num ambiente minimalista. Flores eram as rosas de cor champagne, o inusitado das Strelitzia ou das orquídeas num vaso desenhado pelos artesãos da Nuutajarvi. Após anos num mundo em que os rios amplos estão além da imaginação das pessoas, em que o cheiro húmido da floresta pertence àquelas lembranças que retornam nos sonhos, as flores passam a ser uma forma de remodelar o meu pequeno universo. De trazer cor e vida a um mundo árido. Não mais contidas em vasos, cortadas anteontem para amanhã murcharem, porém plantadas no solo, dando-lhe riqueza e vida. A dona da minha casa, feliz com a mudança, começou a trazer as suas próprias plantas e a amorosamente cuidar das que já existem. Será que este pequeno jardim sobreviverá à seca? Ou adormecerá sob um cobertor de poeira, despertando novamente com as chuvas de Dezembro?
*CGI = Computer Generated Image (imagem gerada por computador)
domingo, 8 de fevereiro de 2009
No tempo em que os aviões voavam...
Nessa época estava eu em Timor e decidi ir passar uns dias a Kupang, para ver como era o "outro lado" ou "o lado de lá".
Estávamos no finalzinho de Agosto e apanhei o vôo então existente entre as duas capitais existentes na ilha, numa "amostra de avião" da Merpati, superbarulhento, com cerca de 12 lugares.
Importante para a decisão de lá ir foi o facto de, por acordo entre Portugal e a Indonésia, os cidadãos portugueses já poderem, como tantos outros, obterem o visto no ponto de entrada no país e não, necessariamente, na Embaixada indonésia mais próxima.
Chegados ao aeroporto de Kupang mostrámos os passaportes e dissemos que queríamos entrar... :-). E que pretendíamos fazê-lo gozando da nova facilidade burocrática.
Aí é que a coisa "enfeiou"... Os funcionários, solícitos, disseram-nos que tinhamos de ter o visto de entrada obtido na embaixada Indonésia e eu, igualmente solícito, disse que não senhor, que agora podíamos comprá-lo ali mesmo.
O pior é que os funcionários não sabiam da nova legislação. Lá explicámos que desde o dia 1 passado podíamos, como os cidadãos de outros países, comprar o visto na entrada. Admirados por não saberem das novas regras, foram-se informar.
Daí a pouco voltaram confirmando a existência das mesmas mas que a versão do sistema informático com que trabalhavam ainda não previa a nova situação. Ficaram sem saber o que fazer. E entretanto já todos os (poucos) passageiros do voo de Dili tinham seguido a sua vida...
O tempo foi passando e como estava de férias "encaixei" a situação --- que entretanto já se arrastava há uma boa meia-hora --- com bonomia.
A mesma com que fui respondendo às perguntas dos 3 funcionários da Alfândega, ali mesmo ao lado, sobre quem éramos, onde viviamos em Portugal, o que fazíamos em Portugal e em Timor... O costume naquelas paragens.
Foi nesta sessão de "perguntas e respostas" que fiquei de boca aberta... Quando disse que era nado e criado em Setúbal um dos funcionários volta-se para mim e diz-me: "Vitória de Setúbal! Clube famoso!..." Fiquei embasbacado! Como era possível a 20 mil kms de casa virem-me dizer que conheciam o Vitória e que o apreciavam?!...
Mas as surpresas estavam destinadas a não acabar ali. Entretanto os funcionários da "Imigrasi" continuavam às voltas com o computador e a papelada para tentarem desbloquear a situação e deixarem-nos entrar na Indonésia.
No meio desta confusão dá-se uma mudança de turno e lá tiveram uns de explicar aos outros o que se passava. E nós à espera e na conversa sobre o Vitória com os da Alfândega . Se tivessemos ali uns chouriços e umas febras não tenho dúvidas que teríamos festa. Com "bjecas" ou sem "bjecas".
Entretanto surge a funcionária mais graduada da "Imigrasi" que tinha acabado de entrar ao serviço e que veio ver porque estávamos nós ainda ali. Conversa para aqui, conversa para ali, pegou nos passaportes e viu a nacionalidade e o apelido.
Foi aí que começou a falar comigo num português um bocado mal amanhado mas português... E então disse-me que era timorense e de Maubara. Não resisti e usei a minha "arma secreta": disse-lhe que era parente do Vô Serra! Arregalou os olhos e disse que o conhecia bem.
A partir daí foi uma beleza... Em cinco minutos estava, finalmente, a entrar oficialmente na Indonésia!...
Quem diria que iria ali encontar um (quase) adepto do Vitória de Setúbal e uma conhecida do Vô?!...
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Pescadores "submarinos" de Timor Leste
Na minha colecção falta, no entanto, uma peça fundamental: uma "espingarda de caça submarina" artesanal como a que se pode ver na foto abaixo.
Com um bocado de madeira, uma "lança" de ferro e umas tiras de borracha --- normalmente aproveitamento de uma câmara de ar --- faz-se uma "espingarda" que é manuseada com maior ou menor destria pelos "pescadores submarinos". Estes são, na sua maioria e ao que parece, oriundos de Ataúro embora as duas fotos tenham sido tiradas em Dili (a de cima frente ao Palácio do Governo e a outra na "Praia dos Coqueiros"). Na zona da Areia Branca aparecem, com alguma frequência, uns quantos na sua actividade.Do equipamento fazem também parte os óculos, feitos à mão a partir de um bocado de madeira mais fácil de moldar e de vidros, por vezes fundos de garrafas.
É a peça que falta na minha colecção... :-) O "probrema" é viajar com aquilo no avião!... Ainda sou preso como perigoso terrorista!...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Era uma vez uma moeda que era para ser e não foi...
Chamámos então a atenção para o facto de o seu desenho ser "apenas" o último de outras alternativas que chegaram a estar planeadas. A penúltima versão foi esta:
Entendeu-se, no entanto, que como a moeda de 10 centavos já representava uma ave (o galo), seria aconselhável escolher outro tema e foi aí que alguém (perfeitamente identificado...) sugeriu o arroz, base importante da alimentação dos timorenses, querendo com isso significar-se a necessidade de apostar numa política de combate à fome e à sub-nutrição.A moeda "que era para ser e não foi" baseava-se, como é fácil de constatar, na foto abaixo.

O curioso é que o bicho foi comprado de propósito para que fosse possível tirar-lhe quantas fotografias fossem necessárias até se obter uma em que ele "ficasse bem na foto".
Tiradas as fotos, se ele viesse a ser escolhido para figurar na moeda --- como chegou a ser ---, seria libertado no dia do lançamento oficial das moedas.
Entregue aos cuidados de uma "curadora" (:-) , o malandro arranjou manhas de se "escapulir" antes da festa. O que vale é que ele não chegou a ser o escolhido. Não foi vingança por ter fugido... mas se alguém o vir diga-lhe que foi! Podia ter passado à História e assim...
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
As bonecas de Ataúro em exposição/venda no Porto
Umas peças interessantes, embora de um artesanato recente, quase urbano, são as "Bonecas de Ataúro". Pois elas vão estar presentes numa exposição no Porto (EXPONOR) de 5 a 8 de Fevereiro próximos. Veja aqui mais informação e veja abaixo a foto de uma das bonecas.
E já que falámos da entrada em circulação dos "centavos"...
Repare-se que ele tem no pulso o relógio e que nele se pode ver a hora do momento: 9h18m !
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Outro selo, outra "estória"

A série de selos esteve sujeita ao tema "símbolos (nacionais) de Timor-Leste" e este selo representa a moeda timorense, os "centavos", começados a circular em 10 de Novembro de 2003.
Por isso o selo representa a moeda de 10 centavos e também o galo de luta que está numa das faces da moeda.
Voltaremos mais tarde ao tema "moedas de Timor Leste"; por agora adiante-se apenas que o galo foi fotografado no "Mercado dos 'tais'", em Dili. O seu destino estava marcado e morreu em combate poucas semanas depois de ter sido fotografado. Mas ficou para a história de Timor Leste...
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Um selo, uma "estória"
Com amigos, fui visitá-lo mais uma vez mas não estava em casa porque tinha ido para a festa. Lá fomos à sua procura e demos com ele numa festa de comemoração da recuperação de uma pequena igreja alguns quilómetros adiante.
"Armado" da inseparável máquina fotográfica, zás! "Click" para aqui, "click" para ali...
A certa altura há um homem, vestido a rigor nas suas vestes tradicionais, que se coloca de cócoras à minha frente para eu lhe tirar uma fotografia com o seu galo. O que me chamou a atenção foi o olhar dele: penetrante como eu nunca tinha visto! Tipo "raios X"! Parecia que estava a ver mais a nossa alma que o nosso corpo. Nunca mais vou esquecer aquele olhar.
A foto ficou como se vê abaixo.

Passado algum tempo a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Portugal, pediu-me algumas fotos para escolherem umas para fazerem uma série de selos para os Correios de Timor Leste.
Enviei várias, entre elas esta, e nunca mais pensei no assunto.
Ora, qual não foi o meu espanto quando, alguns meses mais tarde, nas comemorações do "28 de Novembro", soube que ia ser lançada uma nova série de selos de Timor. Quando a vi, lá estava ela no selo de 15 centavos, aqui reproduzido no envelope do primeiro dia de circulação (28NOV2005) da série "Símbolos de Timor-Leste".
sábado, 31 de janeiro de 2009
As lanchas-patrulha da "Componente Naval das FDTL"
Por tudo isso sempre interessei pelas coisas do mar e hoje não perco a oportunidade de tirar fotos a navios, principalmente aos grandes paquetes de cruzeiro que visitam Lisboa durante o período de Abril a Outubro, principalmente (veja fotos de navios aqui).
Também por isso tenho seguido com algum interesse o que se passa com a componente naval das FDTL que, como muitos saberão, é constituída por duas lanchas de fiscalização, a "Oecussi" (P101) e a "Ataúro" (P102).
Estas lanchas estão normalmente atracadas no pequeno porto de Hera, a poucos quilómetros a oriente de Dili, e foram oferecidas por Portugal em 2002, aquando da independência do país. As lanchas foram pertenciam, em Portugal, à chamada "Classe Albatroz", tendo na nossa Armada os nomes de "Albatroz" (a que deu o nome à classe, a primeira a entrar ao serviço do seu tipo, em 1974) e de "Açor", respectivamente as P1162 e P1163. A primeira é agora a "Oecussi" e a segunda é a "Ataúro" --- a madrinha desta é a deputada Fernanda Borges, líder do PUN e então Ministra das Finanças, a primeira do novo país.
Uma curiosidade: Oecussi é o nome da enclave onde se diz que os portugueses chegaram primeiro e Ataúro é a ilha timorense, frente a Dili, de onde partiram os últimos representantes da então Administração portuguesa em 7 de Dezembro de 1975, data da invasão indonésia de Timor (veja aqui informação sobre a entrega das lanchas a Timor Leste em 2002).
Monumento em Lifau, perto de Pante Makassar (capital de Oecussi) assinalando o local onde desembarcaram portugueses em18 de Agosto de 1515Estas lanchas foram muito afectadas pelo pequeno maremoto que se seguiu aos terramotos que se fizeram sentir em Dili em 12 de Novembro de 2004. Só no final do ano passado, depois de um prolongado período e "fabricos" (reparações) na Indonésia --- com assistência técnica e financeira de Portugal ---, é que voltaram a estar operacionais e a navegar.
Ainda a comida timorense
A foto abaixo foi tirada na zona mais ocidental do país, não longe de Atabae, e nela se vê um monte de bocados de sagu. É vulgar ver estes montes à venda na beira da estrada naquela região.

O akar tem o aspecto que se pode ver abaixo (foto da Wikipédia; veja nela mais sobre o sagu e sua preparação para alimentação, mais usual nas épocas de menor disponibilidade de outros alimentos):
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Mais uma "estorinha"...
A "estorinha" tem que ver com um comentário de uma amiga minha a propósito das moedas do país.
Quiseram os deuses que eu tivesse estado envolvido muito de perto no processo de criação das moedas de "centavos". Essa é uma "estóriazona" que fica para mais tarde. Agora quero apenas recordar, a propósito do que se disse abaixo sobre o milho, uma "estorinha", um comentário que foi feito ao desenho de uma das moedas.
Sabendo do meu envolvimento no processo e de como se chegou ao perfil das moedas actualmente existente --- ai julgavam que as moedas "nasceram" no desenho logo assim?!... Estão muito enganados!... Houve várias versões até se chegar ao aspecto que elas têm... ---, uma amiga minha, profunda conhecedora da cultura timorense por ter feito investigação de natureza socio-antropológica ali para os lados de Lacló no início dos anos 70, disse-me, ao saber que a moeda de 5 centavos representava uma espiga de arroz:
"É pena! Devia ter sido escolhida uma espiga e maçaroca de milho! O milho é que deveria estar representado na moeda pois ele é que é o alimento mais tradicional dos timorenses, particularmente nas montanhas".
Pois é... Só que alguém, lá muito "em cima", sugeriu que fosse o arroz... E arroz ficou. E até "calhou" bem porque o ano seguinte ao da emissão das moedas (postas a circular a 10 de Novembro de 2003) foi definido pela ONU como o "Ano Internacional do Arroz", o principal alimento a nível mundial.
Já agora um segredinho aqui para nós que ninguém nos ouve: a espiga de arroz representada na moeda de 5 centavos secou (claro...) e foi emoldurada... E está onde deve estar.
E já agora outro "segredinho": a espiga original é a que está acima e por malabarismos dos desenhadores das moedas foi "duplicada" para fazer a que se vê na moeda. Artistas!...
Terceiro e último "segredinho": a espiga é de Aileu! Foi fotografada na Quinta Portugal, explorada pela Missão Agrícola portuguesa, no final de Abril de 2003.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Chove a cântaros! E a chuva traz comida...
É também o tempo em que há gente por toda a parte a vender milho e verduras, e os quiosques na praia ficam cheios à noite para vender “batar tunu” (milho assado) e churrasquinho de frango. É bom ver isso; ter famílias andando pela orla à noite significa a volta à normalidade.
Até agora não colocamos nada aqui sobre a cuisine de Timor, embora a última viagem dos malais juntos tenha sido precisamente para comer um tukir preparado em nossa homenagem nas montanhas. O tukir é a carne assada lentamente dentro do bambu na brasa. O resultado é muito bom.
"Tukir" assando na brasa dentro da cana de bambu (em cima); e pronto a comer, em baixo
Adoro a flor de papaia misturada com flor de banana. Aí já é um ponto polêmico: há quem não goste do sabor ligeiramente amargo da flor de papaia. Sabe muito bem junto a frango ou peixe, ou a uma mandioca frita quentinha, prestes a desfazer-se... A que é servida pela Fina, com o peixe grelhado e batata frita, dá um sabor especial à refeição. Aliás, foi a Fina quem me ensinou a comer as flores – o “modo fila” (verduras misturadas) dela.
Fina: com um sorriso destes só pode ser timorense...
Dizem que a flor de papaia pode diminuir as infecções pelo parasita da malária. Li há algum tempo atrás um artigo num jornal científico (http://www.ajtmh.org/cgi/reprint/65/4/304) que indicava um efeito potencialmente danoso de um dos componentes da papaia sobre o parasita que causa a malária. Uma lógica por trás do consumo da flor, que talvez tenha a substância em maior concentração?
Nesta semana, lá vou eu de novo a caminho da montanha. A meio caminho, comerei de novo o melhor peixe de Timor. Não se ofendam, Fina e pessoal do restaurante Victoria, mas o peixe que se come à beira da estrada em Behau, com catupas* de acompanhamento, é uma delícia!
Melhor ainda se a sobremesa for o fruto da palmeira vendido pelas crianças no local: a massa gelificada do fruto é um bálsamo para a boca, após o “sting” do picante colocado no peixe. Falta apenas uma saladinha para acompanhar. Quem sabe alguém resolve trabalhar com a comunidade local e desenvolver o negócio? Potencial não lhes falta!
Não é o único sítio. Guardo a lembrança de uma viagem a Wedauberek (na costa sul, em Manufahi) na qual fomos recebidos com imensa hospitalidade pela família de um dos colegas. A comida era maravilhosa: peixe assado, verduras, legumes e frutas. Comemos muito inhame, cará e mandioca cozidos, como café da manhã. São uma delícia misturados a um molho feito de tomate, pepino, cebola e picante (budu) que é muito comum aqui. Confesso que prefiro quando há pouco “chilli”. Mesmo após anos de Timor, o picante ainda não está na minha lista de sabores favoritos...
Há outras coisas deliciosas que só se comem nas regiões mais rurais, onde se escapa um pouco da obsessão pelo arroz que existe em Díli. Uma delas é o “akar”, um tipo de pão chato feito com a farinha do tronco da palmeira, que se assemelha ao chapati indiano e à tapioca brasileira.
Rapaz puxando um troco de palmeira para fazer akar. Note-se o "engenho e arte" no corte do troco para facilitar o transporte
É muito bom, e ainda assim, é a comida da fome em muitas aldeias. Lembro de uma visita a um lia-na’in (guardião das histórias e do conhecimento tradicional da aldeia), na companhia de um amigo timorense mais velho e muito sábio. Serviram-nos biscoitos indonésios, e trouxeram o akar com desculpas. Este amigo apontou-lhes o facto de que os biscoitos eram-nos fáceis de obter na cidade, e o que realmente seria uma iguaria nova para nós era precisamente o akar.
Em algumas coisas, Timor está no mesmo estágio de tantas outras nações, de valorizar mais o produto industrializado importado do que aquilo de bom que é natural da terra. É pena, mas é parte de um processo inevitável. Sei que, daqui a 20 anos, verei o inverso, e que as iguarias timorenses é que serão o alvo da valorização.
As frutas, verduras e legumes têm aqui um sabor mais intenso, às vezes mais doce. A papaia, o ananás e a cenoura são mais doces, menos “aguados”. Talvez resultado de um solo mais ácido, menos água disponível? Não sei, mas o gosto é melhor do que os de outros lugares. Adoro as melancias pequenas e redondas, de gosto concentrado. Porém, pouco se faz ainda com essas frutas. Quem me dera comer de sobremesa um sherbet de manga!
Como já é tarde e falar de comida dá fome...deixo-os a pensar nos sabores de uma terra distante (ou próxima?) e vou à procura do meu próprio jantar. Até mais!
*A catupa é o arroz cozido com leite de coco dentro de uma “trouxinha” trançada de folha de palmeira.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Uma correcção de um leitor sobre o "barlaque"
«Os tais são (e eram) peça importante do pagamento do "barlaque" à família da noiva...»
Não. "Os tais são (e eram) peça importante" do ritual do "barlaque" que cabia (e cabe) a família da noiva oferecer à família do noivo, sublinho, oferecer à família do noivo juntamente com porcos e arroz. A parte que cabia (e cabe) à família do noivo no ritual de troca de bens - pois trata-se de uma troca de bens, e não um pagamento/compra da noiva (porque se se tratar de uma transacção, então, o noivo, repito, o noivo é igualmente objecto de compra da parte da família da noiva, porque o valor transacional de tais, varas de porco e sacas de arroz é equivalente ou em alguns casos ultrapassar o valor transacional dos bens entregues à família da noiva pela família do noivo)- são búfalos, cavalos, belak e espadas.
Cumprimentos.
Sebastião"
Mais uma vez: obrigado! A minha linguagem deu a ideia de que se trata de uma transação comercial de "compra e venda de propriedades" relativamente à mulher, o que não é verdade já que, a se-lo, seria quase caso de polícia... :-)
domingo, 25 de janeiro de 2009
"Esquecido do Império", "camarada Bere Buti" ou simplesmente "Vô Serra"? Tudo!

Estamos algures em Setembro/Outubro de 2002. Alguns meses antes tinha sido publicado no Brasil o livro da jornalista Rosely Forganes (as melhoras, Rosely!) intitulado "Queimado, queimado, mas agora nosso!".
Sabendo disso pedi a uma aluna minha que estava no Rio que trouxesse o livro para Portugal, o que fez. Como entretanto fui para Timor Leste sem o receber, só em meados de Outubro chegou às minhas mãos através de um amigo que veio a Portugal e regressou a Dili pouco depois.
Recebido o livro na tarde de uma segunda-feira, nessa mesma noite estiquei-me em cima da cama do hotel onde estava (o então "D. Aleixo", hoje "Central") e fui lendo, fui lendo até que de repente (pg 66) dou com um diálogo dela com um personagem que parecia saído de um outro mundo. Indagado sobre se falava português ele respondeu "Claro, minha filha, eu sou português!". E ela continua : "Sem querer acabo de cruzar com um dos personagens mais incríveis e folclóricos do Timor: o Vovô Serra". Aí dei um pulo na cama e sentei-me para reler a fim de confirmar o nome dele. Lá estava escarrapachado: SERRA!
Aí fiquei com os sentidos todos atentos, o coração a palpitar mais acelerado e até li mais depressa o texto seguinte para ver se sabia mais sobre ele, uma pista sobre eventual ligação familiar.
Quando, mais à frente, ela diz que "Ele é natural do Fundão, na Beira Baixa, concelho de Castelo Branco" fiquei com um nó na garganta pois... o meu avô era do Fundão! Mais concretamente de Souto da Casa, a cerca de 5kms da sede do concelho. A hipótese de, inesperadamente e, mesmo algo inacreditavelmente, ir encontrar ali um parente, ainda que afastado, "esquecido do Império" quando a Indonésia invadiu Timor Leste, era algo que mexia comigo.
As horas daquela noite demoraram dias a passar... No dia seguinte, logo que cheguei ao emprego na manhã seguinte enviei uma mesnngem de e-mail à Rosely e pedi-lhe que me enviasse uma foto do "Vovô Serra". Jornalista e fotógrafa, ela teria certamente uma ou mais. O problema era agora sobreviver à angústia de esperar que ela abrisse o mail --- ainda por cima como uma diferença horária de 11 horas... ---e me respondesse.
Finalmente, ao fim do dia, chegou a resposta dela. E lá vinha a foto. Abri e... fiquei de boca aberta! E, aqui para nós que ninguém nos ouve, virei-me para um canto e deixei correr umas lágrimas: vários traços fisionómicos e o pormenor do "rabo de cavalo" de um cabelo todo branco tinham a "marca da casa": a do meu avô paterno, falecido aos 92 anos com uma farta cabeleira branca e... de "rabo de cavalo"! Aos 92 anos!... Talvez perguiça de ir ao barbeiro e de certeza uma certa dose de irreverência que está no nosso código genético.
Logo ali disse para mim mesmo que teria de conhecer pessoalmente o "Vô Serra" e o resto da semana foi passada com uma enorme impaciência até que chegou a manhã de sábado.
Meti-me no 4X4 com outros dois amigos --- um deles vai dar origem a outra "estória" de família, esta relacionada com o meu ramo materno --- e lá fomos a caminho de Maubara. Chegados à povoação, junto ao forte, indagámos pela casa do Vô Serra e lá nos explicaram que para lá chegarmos tinhamos de tomar a estrada que subia a montanha. Na verdade a estrada que no tempo da administração portuguesa dava acesso à Ribeira de Loes e, mais adiante, a Batugadé e à fronteira com o Timor indonésio. Lá fomos, tendo começado por atravessar a vau a ribeira de Maubara, quase permanentemente seca.
Vista da costa norte de Timor Leste na região de Maubara, no sentido Leste;foto tirada na estrada para casa do "Vô Serra"
Depois de uns quantos quilómetros de curvas e contracurvas, algumas delas quase em 360º, chegámos a um conjunto de casas onde nos disseram que a casa do Vô já tinha ficado para trás. Não a tinhamos visto por ficar um pouco afastada da estrada.
Lá voltámos para trás e depois de percorrido o caminho de uns 100 metros que dá acesso à casa, apareceu o "velho Serra", com o seu cabelo branco apanhado atrás.
Identifiquei-me e disse-lhe da minha suspeita de que seriamos parentes pois o meu avô era da mesma zona dele.
Confirmada a origem comum, os nossos braços abriram-se para receber o outro num abraço de alguém que conhece o outro "desde sempre". Pelos vistos é mesmo verdade que "sangue é sangue"!...
Uma história mais pormenorizada do que foi a vida dele em Timor --- onde chegou há 43 anos!... --- fica para depois. Entretanto, na nossa conversa tive a oportunidade de saber que tinha chegado para se juntar ao irmão que já lá estava havia cerca de 20 anos, ido de Angola, onde prestava serviço militar. Foi integrado numa das primeiras companhias militares portuguesas que chegaram à então colónia após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945 ou 1946, e também ele nunca mais saíu de Timor, estando enterrado no cemitério de Batugadé, onde faleceu em 1979 --- já depois, portanto, da invasão indonésia.

Aí tinha uma serração de madeiras --- de que hoje só resta o "esqueleto" --- e por isso era conhecido como " o Serra das madeiras" ou "o Serra de batugadé" (ainda que o apelido de família tenha, suspeito, que ver com a proximidade do Fundão às Serras da Estrela e da Gardunha).
Apanhado pela invasão indonésia em 1975, o Vô Serra decidiu ficar em Timor para tentar salvar as terras e o gado que então possuia na zona de Atabae e na Loes. E isto apesar de na altura da invasão estar planeando vender umas quantas cabeças para financiar a sua vinda a Portugal para vir buscar a mulher e o filho --- que ele deixara com 15 dias de idade!...
Quis a História que isso não tivesse sido possível e acabou, como a maior parte da população timorense, fugido no mato durante 3 anos, tentando escapar ao contacto com a tropa indonésia. Foi dessa época que lhe ficou o nome de "camarada Bere Buti" --- "camarada timorense branco" na língua da região. Entretanto, claro, as 400 cabeças de gado "foram-se"...
Em 1979, com a decisão da resistência timorense de mandar regressar as pessoas às povoações por, face às ofensivas do exército indonésio, ser impossível aos guerrilheiros continuar a assegurar a protecção da população e condições de produção de alimentos, ele próprio se integrou nesse movimento e abandonou a vida errante e difícil no mato, cheia de carências de toda a ordem.
Com a morte do irmão e face ao facto de os descendentes deste terem, na sua maioria, conseguido sair de Timor Leste, resolveu, para assegurar a propriedade dos terrenos, instalar-se na quinta da família no alto de Maubara onde ainda hoje vive e recebe, sempre com um sorriso e conversa fácil, quantos lá aparecem. E não são poucos!
Aí produz e vende café e... os melhores ananases do mundo!
Ananás do "Vô" Serra descascado à moda timorense, em espiralUm abraço, Vô!...



















