domingo, 3 de outubro de 2010

Traição! Traição!... :-)

Domingo, 3 de Outubro de 2010. O dia tão ansiosamente esperado ( :-)  ) de ir a casa da Nafreana e levar as fotos que lhe tirei em três anos sucessivos (2008 a 2010). Meti-me no carro e lá fui eu a caminho de Bercoli, onde ela reside, para depois seguir até Venilale a fim de tirar fotos do que resta das casas da administração portuguesa da vila. Pelo caminho e porque era domingo, viam-se as igrejas com muitas pessoas.

Vêm-se também muitas construções feitas, pelo menos em parte, de pedra aparelhada outras que se percebe estarem a serem construídas graças ao surto de algum desafogo económico recente dos proprietários, alguns deles, provavelmente, vivendo em Baucau ou Dili.
Mas também se vêm construções tradicionais.


Até que se chega a casa da Nafreana, bem na base do pequeno carreiro que leva à igreja de Bercoli, erigida num pequeno alto.


Construída em 1963, o seu interior é espartano, com uns quantos bancos corridos e alguns, poucos, pequenos altares para 3 ou 4 imagens de santos.
Segundo reza a história, neste local, aproximadamente, terá havido uma pequena capela em materiais locais onde terão existido algumas estátuas muito antigas. Uma delas seria mesmo, segundo o informador no local (o sacristão?), dos idos de 500... Teria depois sido entregue à guarda dos reis locais até que se lhes terá (?) perdido o rasto.

Chegado junto da casa da Nafreana, perguntei por ela à mãe e... Traição! Traição!... Eu vim de Dili à procura dela e ela... foi para Dili e só regressa na quarta feira!... Face ao "facto consumado" não tive outro remédio senão entregar as fotos e mais umas pequenas lembranças à mãe da Nafreana e seguir para Venilale.

A casa maior de um conjunto de outras de arquitectura colonial portuguesa, construídas no tempo do administrador Pité, pai do Luís Pité, terá sido a residência do próprio administrador. Está no estado que se pode ver nas fotos abaixo (exterior e corredor interior). É uma pena se não for possível recuperá-la e usá-la, eventualmente como ponto de apoio turístico ou mesmo para funções administrativas.
  



Mais à frente está a "Escola do Reino de Venilale". Reconstruída pela Swatch há alguns anos atrás o uso de tintas inapropriadas para este clima terá contribuído para o aspecto que tem hoje, cheio de manifestações de humidade.


Terminada a viagem, era hora do regresso e de gozar das paisagens do caminho, onde se vêm muitos locais de cultivo de arroz em terraços que, com o seu verde, dão à paisagem um aspecto por vezes paradisíaco.



Quase a chegar a Baucau, uma cena do quotidiano: na mikrolete à minha frente um pequeno passageiro tinha-se deixado dormir e "tirava um cochilo"

sábado, 2 de outubro de 2010

A "loja" de artesanato de Oécussi em Dili

Desde o ano passado que assentou arraiais na rua ao lado do Hotel Timor. Trata-se de um timorense de Oécussi que vende produtos oriundos do enclavei --- embora desconfie que alguns são da província indonésia vizinha, NTT... É, certamente, a melhor "loja" de artesanato de Oécussi em Dili.


Particularidade do seu comportamento é o de que tem por hábito saudar quem passa, interessado ou não nos seus produtos, com uma quase impecável continência.


Quase não falando tétum --- adivinho que a sua língua materna seja o baikeno ---, é um sarilho para a gente se entender, nomeadamente para discutir preços. Mas o que é certo é que no ano passado lhe comprei um par de portas e este ano já lá vão uns kini-kini no meio de outras coisas menores.


A compra dos kini-kini, particularmente, deixou-me quase à beira de um ataque de nervos... :-) Tendo eu compreendido que ele pretendia 50 USD pelo par, fiz a minha oferta "irrevogável": 30 "paus". Recusou liminarmente e eu voltei costas.
Mas eu tenho a cabeça dura e quando fixo os olhos numa "presa" é difícil largá-la...
Mais tarde voltei lá. Afinal os kini-kini não eram dele mas sim de um outro companheiro que entretanto aparecera. E o preço subiu de repente para o que eu entendi serem... 80 dólares. Nem morto! Depois de muita conversa sobre o preço o homem alinhou um conjunto de notas para dizer qual o preço. Afinal não eram 50, nem 80 mas sim... 100 dólares.
Na brincadeira bati com o indicador na cabeça e disse-lhe que estava "bulak"!... E virei costas mais uma vez e fui almoçar ao Hotel, onde amigos me esperavam.
Mas a "azia" continuava. Ainda por cima uma amiga minha e usual "parceira" em incursões do mercados dos tais e feiras de artesanato caíu na "asneira" de me dizer que era raríssimo ver kini-kinis à venda. Bem dito bem feito: o fruto "proibido" é mesmo o mais apetecido e terminada a refeição disse aos meus amigos "vou ali num instante e já volto!".
E lá voltei eu ao "ataque". Palavra puxa palavra, nota puxa nota, chegámos finalmente a um acordo: "arrematado ao malae boot por 50 dólares"! E lá vim eu chocalhando os kini-kini rua fora todo satisfeito da vida... Mais uma peça para a minha "uma lulik"... :-)

sábado, 28 de agosto de 2010

;]=+_'@#%* !...

Estranharão certamente o título desta 'entrada' mas, habituados a lerem banda desenhada, perceberam que se trata de algo muito sério e impróprio para traduzir... :) A causa próxima do verdadeiro impropério é o facto de, devido à lentidão da net em Timor e a controlos internos ao sistema informático do meu local de trabalho, me vir impossibilitado de, mesmo aos fins de semana ou fora do horário de expediente (claro!), actualizar mais frequentemente os meus blogues, nomeadamente este e um sobre a economia de Timor Leste. E isto apesar de o responsável da "IT" me ter jurado a pés juntos que o poderia fazer ao fim de senana. Uma ova!... :-)

Uma das 'entradas' que ficou no tinteiro até agora foi uma "estorinha" deliciosa que me foi contada por alguém responsável por uma das mais prestigiadas instalações turísticas do país.

Sujeitos a uma inspecção dos serviços de controlo de qualidade alimentar, receberam posteriormente uma carta reconhecendo que tudo estava em ordem. O único "senão" era os vinhos estarem fora de prazo. É que no rótulo das garrafas podia ler-se perfeitamente qualquer coisa do tipo "Porta da Ravessa 2006", "J P 2007" e coisas semelhantes...

No comments!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Histórias há muitas... Tempo para as contar é que há pouco... :-)

Bem.. Quer dizer... Muitas, muitas não há mas já há algumas. Mas o tempo para as preparar é que não é muito. E com a costumeira lentidão da net aqui por estes lados ainda apetece menos... :-(

Mas enquanto ganho coragem para escrever textos mais longos, aqui vão umas fotos para animar a malta quase a pedido de várias famílias... :-)

Nascer do sol, hoje, cerca das 7h da manhã, visto da Praia dos Coqueiros

O restaurante do projecto Mos Bele no interior do forte de Maubara

Vô Serra, sempre ele, rijo e fino nos seus quase 81 anos (24/OUT)

Vindo do mercado de Maubara

Quem quer galinhas ou um leitãozito para assar no forno?!...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Já cá canto!...

Bem... A expressão não deve ser tomada à letra pois na verdade não canto nadica de nada. É apenas a forma "popular" de dizer que estou de volta ao "terreno de jogo", isto é, a Timor Leste. Depois de uma saturante viagem de quase 24 h até Bali e de 4 repousantes dias no hotel do costume, desembarquei em Dili na passada segunda-feira para mais uma estada de natureza profissional.
"Estórias" ainda não as há, claro. A não ser a satisfação de ver que os muitos amigos que por aqui tenho e, mesmo, alguns "admiradores incógnitos" ficaram satisfeitos por me verem. Também eu!
Amanhã irei dar "aquele abraço" ao Vô Serra e depois conto como foi o reencontro --- com ele e com as estradas do país depois do "pacote do referendo".
Me aguardem, gentes!...

Sem palavras...

sábado, 26 de junho de 2010

Tchiii!... Que longo interregno!...

Pois é! Há dois meses que não escrevemos nadica de nada no nosso "Livro" de "estórias"!... Uma anda com trabalho até à ponta dos cabelos e o outro não lhe fica muito atrás!...
E, claro, o "armazém" de "estórias" foi-se esvaziando ao longo dos meses e agora precisa de ser reabastecido... Talvez daqui a um mês a coisa melhore... Pelo menos pela minha parte pois espero regressar a Timor na segunda metade de Julho.
Depois haverá mais materiais, certamente.
Até lá... vão esperando!... SFF!...

sábado, 24 de abril de 2010

Uma parte dos "acontecimentos" de 2006 vistos da janela do City Café...

Amiga minha a quem o solicitei expressamente predispôs-se a relatar aqui como viveu alguns dos dias mais agitados durante a "confusão" de 2006.
Alojada então no City Café, trata-se de um relato na primeira pessoa que, de acordo com a autora ("Simplesmente J."), foi ligeiramente "editado".
Aqui fica o nosso agradecimento à autora deste texto. O agradecimento é, simultaneamente, um desafio para que outros(as) partilhem aqui connosco as suas "estórias" passadas em Timor Leste nos últimos 10 anos.

"Vou-me limitar aos acontecimentos pessoais, sem comentar ou narrar os acontecimentos políticos!

As aventuras começaram ainda em Abril [de 2006], aquando da manifestação [ligada à Igreja]junto à actual Casa Europa, a antiga "Intendência" dos últimos tempos da administração portuguesa. O City --- ou bunker como nós gostávamos de lhe chamar por nele nos sentirmos em segurança --- tinha como inquilinos normais, para além de muitos civis "internacionais", muitos polícias e militares, portugueses e não só.

No final de abril, dia 28 se não me engano, eu estava no ME numa reunião, quando recebi um sms da minha irmã a avisar que o Alkatiri ía acabar com a manifestação e que o melhor era ir para casa pois poderia haver confusão.
Sem avisar ninguém para não lançar o pânico, arrumei as minhas coisas e saí "à francesa" --- que os nossos primos brasileiros chamariam de "sair de fininho"...
Não havia nenhum taxi em Vila Verde e decidi ir para casa a pé. Por via das dúvidas, fui pela rua que vai dar ao Obrigado Barraks pois se os problemas começassem naquela altura eu entraria lá para dentro e ficaria em segurança. Indo pelo outro lado arriscava-me a ser apanhada no meio da confusão na rua. Chegando à Tropical Bakery entrei e comprei algo de comer para levar para o City pois não sabia se iria ficar lá fechada algum tempo ou não.
A tensão era imensa. Não sei explicar bem o que se sente nem descrever o ambiente, mas a verdade é que a tensão se sente. Sente-se um peso enorme, um clima estranho. As pessoas comportam-se de forma diferente, os olhares são diferentes. Os nossos músculos contraiem-se sem que nós possamos fazer algo contra isso e sem que nos apercebamos o quão tensos estamos.

Ao sair da Tropical Bakery apareceu um taxi que apanhei de imediato em direcção ao City. Lembro-me de pensar que se ele me levasse para outro lado e me atacasse ninguém saberia de mim e eu não teria como escapar. Afinal eu estava em Timor há apenas 2 meses e ainda não conhecia os recantos todos da cidade. Correu tudo bem e cheguei a casa sã e salva.

Estava no quarto há menos de 5 minutos quando comecei a ouvir gritos de homens. Gritavam coisas como “já começou”, “foi há 1 hora”…. Abri a porta do quarto e percebi que era o S. e o C. [ambos oficiais da Marinha portuguesa] que íam a descer as escadas a correr e a falar um com o outro. Perguntei o que se passava e como resposta o C. gritou-me na sua voz de comando de fuzileiro experiente: “vá para o seu quarto e não saia de lá até eu lhe dizer”. Percebi então que a situação era grave.
Fui bater na porta do quarto da RM, que era virado para o lado do Palácio do Governo. Ela estava lá com a J.. Quando entrei ouviu-se um estrondo, tiros e de repente vimos fumo vindo da zona do Palácio. Não conseguiamos perceber o que se passava, mas atendendo à informação que tinha deu para desconfiar.
Entrei no meu quarto novamente e pensei que se fosse preciso sair dali o melhor era eu estar preparada para correr e fui calçar uns ténis. Quando voltei ao quarto da RM reparei que, sem que tivessemos trocado opiniões, todas tínhamos feito o mesmo e estávamos preparadas para sair dali a correr.

O City estava quase deserto pois era hora do almoço e as pessoas que lá viviam normalmente não estavam nos quartos a essa hora. Vimos um polícia brasileiro a sair e lembro-me de lhe dizer que não se esquecesse de nós caso houvesse algum problema naquela zona! Ficámos apenas as 3 e o LM, um senhor que trabalhava na EDTL. No restaurante apenas estava a dona, D. Fátima, e as empregadas, estas em pânico.

Lá para as 4h da tarde apareceram umas professoras portuguesas a dizer que iam fugir pois tinham recebido indicações de que o City não era seguro --- exactamente por os polícias e militares serem previsível "chamariz" para os desordeiros. Ficámos assustadíssimas, até que apareceu o S. e se pôs aos gritos, furioso com os comentários das professoras! Mandou-nos ficar por lá e não sair à rua. E assim fizemos.

Eu comecei a ficar preocupada com as notícias que iriam chegar a Portugal. Os telemóveis não funcionavam. Lembrei-me que a D. Fátima tinha um fax e utilizei-o para avisar a família do que se estava a passar e que estava bem.
Ao final do dia os outros inquilinos foram chegando e contando as suas peripécias e perspectivas do dia. O ambiente foi acalmando.

No dia seguinte, um sábado, fomos avisados para não andar a vaguear pelas ruas, mas que podiamos deslocar-nos se fosse preciso. Passámos o dia na piscina do hotel Timor, num ambiente divertido. No dia seguinte, um domingo, estava tudo tão tranquilo novamente que fomos para a praia da Areia Branca! O maior stress tinha passado.

Apesar dos carros queimados, dos distúrbios, Dili tinha voltado à normalidade dos últimos dias --- uma normalidade que era tudo menos normal. Desde o início de Abril que a cidade andava tensa e se sentia que podia acontecer algo a qualquer momento.

Em Maio a tensão continuou e aumentou. Foi piorando, com pedradas pela cidade e alguns distúrbios. Por diversas vezes eu recebi sms dos meus chefes a mandar-me ficar em casa por questões de segurança. Isto durava uma manhã, outras vezes um dia. Mais para o final do mês as coisas complicaram-se e fomos forçados a ficar em casa vários dias. Ficámos fechados no City. Os únicos que saiam à rua eram os militares, os polícias e os (poucos) funcionários (portugueses) da EDTL que, conscientes da sua função de assegurar o fornecimento de energia à cidade, correram riscos que outros não correriam. Eram estes nossos "vizinhos" que, ao final de cada dia, nos iam pondo a par dos acontecimentos.
Os telefones raramente funcionavam e por isso na maior parte do tempo nem sequer sabiamos o que acontecia fora do City. Aproveitámos aquela paragem forçada nas nossas actividades profissionais para ver muitos filmes e para visitarmos os quartos todos do hotel. Enfim, fomos tentando passar o tempo da melhor forma possível.

Certa noite estávamos em plena "festa africana", com música e danças africanas para tentar esquecer o que se passava lá fora, quando o C. entra e nos diz que éramos todos loucos pois estávamos a dançar enquanto lá fora matavam polícias. Foi assim que soubemos do que tinha acontecido nesse dia. Percebemos então que, ao contrário das nossas esperanças, a situação não iria melhorar tão breve.

Por essa altura começamos a dividir os quartos para que outras pessoas que tinham sido apanhadas no meio dos distúrbios e não se sentiam em segurança nas suas residências pudessem dormir no City. A J. veio dormir para o meu quarto. Acordava todas as noites pelas 4h da manhã para ver as notícias da RTP Internacional e acordava-me em pânico com o que ouvia. Foram tempos difíceis para todos, mas ela estava mais assustada que a maioria das pessoas.

Os trabalhadores que, pela UCCLA e Câmara de Lisboa, recuperavam o Palácio de Lahane também estavam agora de armas e bagagens no City, sem querer sair de lá pois tinham sido apanhados no meio de um tiroteio e estavam assustados. Queriam ir para Portugal e alguns deles falavam em nunca mais voltar.

Ao mesmo tempo, para algumas pessoas o amor andava no ar!!!! A T. e o PM tinham começado a sua relação há pouco tempo e ela andava nas nuvens, com ou sem tiros no exterior!!! Eram contrastes engraçados no meio de toda aquela confusão!

Passado algum tempo começaram a surgir ordens de evacuação do pessoal civil ligado à ONU --- e não só. Foi o tempo de preparar as mochilas de emergência, que depois se transformaram, pelo menos no meu caso, em malas com tudo o que era possível levar pois naquela altura, de acordo com as informações que ía recebendo dos responsáveis do projecto para o qual trabalhava, tudo indicava que me ia embora de vez. A perspectiva era a de que as coisas iriam piorar em Timor e o projecto não ficaria em standby para sempre.

Fui com os meus colegas R. e J. até ao escritório da Merpati, então já funcionando no supermercado Landmark, a fim de tentarmos obter bilhetes da companhia para sair de Timor via Bali. Este era, naquela época, o único local onde se podia tratar de arranjar bilhetes de avião para sair do país.
Fomos muito tensos até lá, e com razão, pois quando lá chegámos, havia pedrada na estrada. Esperámos um pouco e as pessoas começaram a ir em direcção ao supermercado Leader, mais adiante em direcção a Comoro. Nessa ocasião nós aproveitámos e entrámos no Landmark.
Nesse momento ouviamos tiros e percebemos que o Leader era o alvo das pedras. Os portões estavam fechados e só eram abertos apenas o necessário para, quando as coisas acalmavam do lado de fora, passar um carro.
Lá conseguimos comprar os bilhetes todos que precisávamos e fomos para o Banco Mundial entregar alguns desses bilhetes para um assessor que lá estava com a família. Assim que lá entrámos percebemos que não poderíamos sair.
Recebemos um sms a avisar que havia disturbios na rua do City Café e começámos a ouvir tiros, granadas, gritos… eram umas 11h da manhã. A minha colega J. ligou-se à internet e começou a avisar os amigos australianos do que se passava e a pedir para mandarem alguém buscá-la!!! A confusão, as explosões e os tiros duraram bastante tempo e só conseguimos sair do banco mundial lá para as 4h da tarde. Nunca senti que tivesse a minha vida em perigo, pois na realidade nunca arrisquei muito. Mas senti que se me aventurasse podia sair magoada. O clima era bem pesado.

No City o comandante C., fuzileiro experiente, tinha tudo controlado! Sabia exactamente quantos carros havia, quem os tinha, para onde iriam caso houvesse problemas maiores. Tinha os números de telefone de todos os habitantes do City e sabia onde estavam caso fosse preciso contactá-los ou ir buscá-los. O Sr. Costa e a D. Fátima também já tinham o jeep pronto para sair, com o porta bagagens cheio, preparados para uma evacuação que se afigurava cada vez mais eminente mas não chegoui a ser necessária

Depois de eu ter deixado Timor, mesmo no final de Maio/2006, os que ficaram no "hotel-bunker" foram organizados pelo "grande comandante" para fazer turnos na varanda do quarto da TL. O quarto dela tornou-se a "sala de operações" ou o "CIC-Centro de Informações de Combate" :-) do hotel! Como era no 2º andar e virado para a rua (Presidente Nicolau Lobato) foram lá colocados na varanda um extintor e os sapatos dela que eram quase todos de "cunha" e por isso seriam, em caso de extrema necessidade, boas armas de arremesso! E assim, de sapatos de senhora prontos a serem "disparados", os "sobreviventes" no City Café preparam-se para a "guerra" se ela lhes batesse à porta! :-)

Segundo me contaram, os homens fizeram. durante algumas noites, turnos de vigilância de cerca de 2 horas. A ideia era estar preparados caso alguém tentasse incendiar o City atirando algo lá para dentro. Apesar de todo este aparato e da tensão existente, a boa disposição foi algo que nunca faltou entre os "sitiados" do City Café. Tirando a J., que não conseguia descontrair, todos brincavam com a situação como forma de melhor a superar.

Foram momentos que ficarão para sempre na memória e, por estranho que pareça, lembro-os com algum saudosismo pois o ambiente que se viveu no City nessa altura entre todos os residentes era bom! "

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ignorância e/ou estupidez natural?!...

Soube agora que se atreveram a cortar a "minha" árvore na estrada entre a Areia Branca e o Cristo Rei.
Ao longo dos anos tirei-lhe muitas e muitas fotografias em várias perspectivas pois sempre a achei de uma enorme poesia. Porquê? Por estar isolada e teimar em viver em cima de uma curva em que, certamente por efeito dos ventos, foi ficando inclinada como se por causa da força centrífuga provocada pela curva...
Uma foto do pôr do sol tirada da Areia Branca e apanhando a referida árvore era "o máximo" pela beleza da luz e por efeito da presença isolada da árvore, dando à paisagem um toque de poesia e humanidade muito próprio.

Alguém, certamente sem poesia no coração e com a prosápia dos ignorantes e estúpidos mandou cortá-la na sequência de obras de reparação da estrada. Aliás, não foi só esta... Ao que me dizem, no percurso não sobrou uma... Pessoa amiga descreveu-me assim a situação: "fizeram um 'despacho' de todas as formas de vegetação a caminho do Cristo [Rei], incluindo as árvores na praia."

Até onde vai a estupidez e a ignorância!... Como é possível?!... Alguém tinha falta de lenha lá em casa!... Saber que "as árvores morrem de pé" não é consolação suficiente! Que tristeza!


sábado, 6 de março de 2010

Com tanta chuva até apetece rever isto...

Seguem-se abaixo um conjunto de fotos que têm todas o mesmo denominador comum: foram tiradas a jovens na sua alegre actividade de... tomar uma banhoca!... A maior parte foram fotografados na praia "dos coqueiros", na Avª de Portugal, em Dili.






terça-feira, 2 de março de 2010

Genuíno Madruga, o navegador solitário, em Timor Leste

Em Agosto de 2008 Genuíno Madruga, o navegador solitário açoriano, esteve alguns dias em Dili. A sua chegada foi documentada em reportagem da RTP (veja aqui). O seu barco à vela pode ser visto na foto abaixo, à direita na foto, fundeado na baía de Dili.

Graças a outro navegador (não solitário) que conhece bem os mares dos Açores, o Pedro Mesquita, tive a oportunidade de privar algum tempo com ele (aqui em baixo os dois navegadores na esplanada do "chez Fina", oficialmente o "Sol e Mar", na Areia Branca, no próprio dia da chegada dele a Timor, 11/08/08).

Alguns dias depois, a 15 de Agosto, o Embaixador de Portugal em Timor Leste, na altura o Embaixador João Ramos-Pinto (agora em Pretória, na África do Sul), ofereceu uma recepção ao navegador açoriano nos jardins da sua residência.


Na ocasião foi plantada no jardim da residência oficial do Embaixador uma árvore de sândalo para assinalar a passagem de Genuíno Madruga por Timor Leste.


Mas além desta "história" também há, claro, uma "estória" que se conta em poucas palavras: por acaso no próprio dia da chegada dele tinha comprado uma mácara de Oecussi a um vendedor na rua, ao lado do Hotel Timor. Nunca tinha visto uma peça daquele tipo e não resisti... ("prontos!..." 'tá bem!... Eu sei o que estão a pensar: "Que grande admiração não resistires a uma comprinha de artsanato!...").
A verdade é que quando estive com o navegador, ainda com a peça dentro do saco de plástico onde a tinha metido, não resisti e acabei por lha oferecer como uma recordação de Timor que ele recebeu emocionado. Ainda por cima oriunda do local onde os portugueses terão primeiro desembarcado na ilha.

E assim uma máscara (foto acima) de Timor viajou a bordo do "Hemingway", o nome do barco dele, até aos Açores!
PS - confesso que foi com alguma "dor de alma" que me desfiz daquela peça, sem grande esperança de voltar a obter uma semelhante pois nunca tinha visto nenhuma anteriormente. Só um ano depois, regressado a Dili, consegui obter uma semelhante no "mercado dos tais".

segunda-feira, 1 de março de 2010

A componente naval das FDTL: presente e futuro próximo

As notícias sobre a próxima entrega às FDTL das duas lanchas de fiscalização contruídas na China e a polémica (?) em torno da inexistência de um porto para elas na costa Sul levou-me a ir espreitar imagens das mesmas, das lanchas actualmente existentes (a "Oecussi" e a "Ataúro", oferecidas por Portugal) e do porto de Hera, onde elas ficarão baseadas.

As lanchas oferecidas por Portugal (ver abaixo)têm 18,4 m de comprimento e deslocam cerca de 45 toneladas.

Elas podem ser vistas atracadas no porto de Hera nesta imagem de satélite (em baixo) tirada do Google Earth (topo do molhe em L).


As lanchas chinesas (ver aqui informações sobre a história da sua produção desde o início dos anos 60) são mais compridas (41 m) e deslocam até 170 toneladas.

Para termo de comparação do tamanho das lanchas chinesas com o tamanho dos molhes de Hera diga-se que a "perna" interior maior do molhe em "L" terá cerca de 60 metros e que o molhe "interior", dentro da doca, mais há esquerda terá cerca de 155 metros --- a acreditar nas medições feitas no Google... A largura interior da doca é de cerca de 60 metros.


Não sendo entendido no assunto, chamou-me a atenção a dimensão do "castelo" e o facto de ele contribuir para as lanchas (chinesas) serem relativamente altas e esguias. Isto não deverá afectar a estabilidade da navegação no "tasi feto" mas poderá criar alguns problemas na navegação no "tasi mane" pois poderá tornar as lanchas especialmente sensíveis aos ventos de través. Mas disto os entendidos é que sabem.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Mikroletes e seus nomes de "baptismo"

Os transportes públicos em Dili estão, tal como no resto da região, a cargo principalmente de privados que para o efeito utilizam pequenas "vans" --- usualmente Toyota Hiace --- que dos usuais cerca de 9 lugares passam a ... cerca de 19... :-)
Claro que estou a exagerar mas, em alguns casos, não deve ser muito...

O que sempre mais me atraíu nestas "mikroletes" --- a que há que adicionar os "bus" (mini-bus) e as "angunas" (camiões de carga, de caixa aberta, quase invariavelmente amarelos, que levam de tudo um ppuco... inlcuindo pessoas!) --- foi o facto de muitas delas terem sido "baptizadas".
Abaixo vai uma selecção das que achei mais interessantes. Começando pela "Escudo", que eu gostava de dizer que, na época (após a entrada em circulação do Euro), era o único escudo autorizado a circular...






sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mais ou menos "mais do mesmo"...

A propósito da "entrada" anterior, recordo aqui mais umas fotos "do fundo do baú".
Na de baixo vê-se o primeiro cliente a receber as moedas timorenses no dia da sua entrada em circulação (10 de Novembro de 2003).
Curiosamente pode ver-se no relógio a hora exacta do acontecimento: 9h18m !

Na campanha de informação pública sobre a entrada em circulação das moedas foi divulgado um cartaz explicativo das características das mesmas. Na foto abaixo pode ver-se a modelo junto do referido cartaz.


A foto abaixo é uma das que foram tiradas para a elaboração do cartaz.


Depois do lançamento das moedas a modelo, Zélia S., foi ao mercado às compras utilizando-as nos pagamentos.
E, como se pode verificar, as vendedeiras ficaram satisfeitas por receber as novas moedas.

Do fundo do baú: o lançamento das moedas de Timor Leste

Revolvendo o baú de fotografias, dei com umas quantas relativas à cerimónia de lançamento oficial das moedas de Timor Leste ocorrida a 28 de Novembro de 2003.
Elas tinham entrado em circulação no dia 10 anterior, sendo o primeiro "cliente" a recebe-las o actual Director Geral da Autoridade Bancária e de Pagamentos de Timor Leste, Abraão de Vasconselos.
A cerimónia, ocorrida no dia da comemoração da independência de Timor Leste, decorreu na então "Uma Fukun", o espaço cultural que foi antigamente (administração portuguesa) a "intendência" e que é agora a "Casa Europa", sede da representsação da União Europeia em Dili bem como das embaixadas da Espanha e de França no país.

A ela estiveram presentes as principais autoridades do país naquela épofca, tendo usado da palavra, nomeadamente, os então Presidente da República, Xanana Gusmão, e Primeiro-Ministro, Mari Alkatiri.


Toca a trabalhar: na preparação da exposição, a cargo de vários funcionários da ABP, até o então Director Geral da mesma, Luís Quintaneiro, deu uma mãozinha.
O então Presidente da República com uma visita ilustre: o saudoso sr. Manuel Carrascalão. Nunca tendo sido seu íntimo, habituei-me a rever nele, por causa das barbas, D. João de Castro, o Vice-Rei da Índia portuguesa que se dispôs a empenhar as barbas para financiar a reconstrução da fortaleza de Diu (ver a biografia dele aqui).
Beiro "Areia Branca", reproduzido numa das faces das moedas de 25 centavos
Antes da cerimónia: o então Director Geral da ABP, Luís Quintaneiro, à conversa com o Presidente da República e com o Primeiro Ministro de então
O então Primeiro Ministro da RDTL, Mari Alkatiri, discursando na cerimónia.
Ao fundo funcionários da ABP, incluindo os então Director (à esquerda) e Vice Director Geral (à direita)
O então Presidente da República no uso da palavra
O antigo Director-Geral da ABP com o antigo Presidente do Parlamento