quinta-feira, 30 de junho de 2011

Inspector Maigret... :-)

"Só me saiem duques!..." :-) Então não querem ver que um "amigo" meu do FaceBook deu, na papelada do Arquivo Histório Ultramarino, com o desenho de um fontanário algures em Dili? "Calcorreante" recente da cidade sem ter dado conta do dito, foi ao FB gritar por "Socorro!... Quem sabe se isto foi construído e se sim, onde está?!..."

O primeiro a responder à provocação foi o amigo comum Vítor Murteira que publicou uma foto que peço licença para reproduzir aqui:



Olhando para a foto e com mais algumas indicações recebidas percebi que, ao contrário de alguns "palpites", não se estava perante o cruzamento de Colmera e a Avª Mouzinho de Albuquerque (devolvam a placa toponímica, seus malandros!...) mas sim, porque mais estreita que a anterior, perante a rua onde está actualmente a Catedral de Dili e que liga à "Estrada de Comoro". O cruzamento que se vê é com a Rua de Colmera e no lado direito está agora o novo edifício dos serviços centrais de "Terras e Propriedades". Ou será o de "Registos e Notariado"? Ou os dois? :-) As "palhotas" que se vêm na foto do VM foram agora "promovidas" a sede da Procuradoria Geral da República... Com uma melhorada substancial, é claro, mas com as inevitáveis colunas dóricas... :-)

O pior é que eu, que passo por ali quase todos os dias, não me recordava de ter visto tal fontanário. "Picado" pela questão levantada não descansei enquanto não meti o rabinho no carro e fui em demanda do dito fontanário.
E não é que o safado está mesmo no local onde eu o imaginava?!...



Mal tratado, não está? E no entanto, se com água e tudo, poderia ser um pólo de abastecimento de água na zona. Quem lhe deita a mão?!... Melhor: quem ajardina aquele jardim?

sábado, 23 de abril de 2011

Quem quer peixinho fresco de Ataúro?!...

Sábado de manhã, de super-super-fim-de-semana que, começando na quarta-feira à tarde se vai estender até segunda!
O que fazer sem ser o que os outros "todos" fizeram e que foi ir para Bali? Dar umas "curvas" (literalmente...) por aí.
Ontem, sexta-feira, foi dia de ir até ao "Vô" Serra, que não visitava há cerca de um mês.


A estrada até Maubara está cada vez pior, com buracões cheios de água que obrigam a cuidados suplementares porque nem podemos calcular a profundidade dos buracos. Num deles "caí" literalmente dentro dele a uns quanto kms/hora e foi um "banho"...

Chegado a casa do "Vô" estivemos na conversa mais de uma hora e vi a sua nova "aquisição": a planta de baunilha, uma trepadeira, está com flores e vagens. Ele explicou-me que quando as flores aparecem e não havendo bicharocos que façam a polinização, o homem tem de intervir... O que me fez lembrar a velha definição de um aluno que disse que "na inseminação artificial o veterinário substitui o boi"... :-) De facto, a fecundação das flores é feita pelo homem, aplicando uma técnica primária mas eficaz: espetar um pau na flor!


A verdade é que a planta está cheia de vagens que mais tarde, depois de secas, dariam bom rendimento se vendidas. E dão o cheiro agradável bem nosso conhecido.



E chegou a hora da partida. Descendo a montanha, vi uma família de timorenses (casal e 5 filhos!...) a quem acabei por dar boleia pois calculei que fossem para Maubara e ainda estavamos a uma boa distância. Além disso a senhora levava pendurada nas costas mas presa com a alça na testa, uma enorme cesta cheia de bananas! A pé levariam, provavelmente, mais de uma hora a descer a montanha. Lá entraram todos no carro e vieram comigo.
Afinal nem era para Maubara que íam mas sim para uns 5 kms mais adiante. Ficaram a bendizer o malae, certamente... :-)

A caminho de Dili, talvez a meio caminho entre Maubara e Liquiçá, dei com algo que sabia existir mas nunca tinha visto: uvas! Infelizmente eram um bocado amargas porque não tem estado sol suficiente e a chuva em excesso que tem caído também contribui para o resultado.


Mesmo assim estava disposto a comprar um kilo (2 dólares; cerca de 1,4 euros) mas nem eu nem o vendedor tínhamos trocado! Paciência!

Já depois de Liquiçá, uma das pontes da região foi abaixo e estão a construir uma nova. Já está feita toda a "teia de aranha" de sustentação da ponte para o enchimento da mesma.


Por fim, de regresso a Dili, não sem antes ter de passar pelas curvas que separam Tibar da capital, zona "povoada" de rochas na estrada devido aos deslizamentos de terras que têm acontecido na região devido à abundância e intensidade das chuvas nesta época.


E eis-nos chegados ao "sábado de aleluia"! Hoje de manhã, aproveitando uma nesga de sol, fui dar uma volta e descobri duas "novidades" quase frente à Casa Europa, a antiga "Intendência": um relógio urbano ainda em montagem e uma cena que já tinha presenciado noutra ocasião: a descarga de peixe vindo de Ataúro para abastecer a cidade.


O curioso do relógio, oferecido por uma empresa à cidade, é que a marca do mesmo, pouco vulgar, é o nome de uma grande amiga minha que vim conhecer em Timor Leste e que muito admiro pelo seu trabalho à frente de um projecto de produção de materiais de apoio ao ensino usados em todo o país. Claro que me "armei em bom " e enviei logo uma mensagem para ela dizendo que tudo tinha sido feito graças às minhas influências e para a homenagear!... LOL ! Mentirinha boba... :-)

Quanto à cena da descarga do peixe, aí ficam algumas fotos legendadas e que contam a "história" toda...

 O peixe vem de Ataúro em "corcoras"...

... de onde é transferido para os beiros que o leva a terra...

... onde é amontoado antes de ser disposto nas "cordas" que serão
penduradas nos varapaus de transporte
aos ombros dos vendedores


Amanhã é outro dia...

sábado, 2 de abril de 2011

Baucau e seus arredores...

Há uma semana, aproveitando o facto de estar na Pousada de Baucau o meu amigo de infância Henriques de Jesus, "meti rodas a caminho" e fui (fomos) até Baucau. O projecto era ir rever a minha "modelo" de há uns 3-4 anos, a Nafreana, que mora na estrada de Venilale a fim de lhe tirar a foto deste ano e, no domingo de manhã, ir até Laga para ver como estavam os campos de arroz que tanto me tinham impressionado há cerca de um mês, na viagem que inesperadamente fiz a Baguia e relatada noutro local.

A viagem de Baucau para Venilale decorreu debaixo de chuva mas mesmo assim deu para tirar umas fotos interessantes. Nomeadamente esta mãe e as filhas que se protegiam da chuva com folhas de bananeira, um modelo muito ecológico de guarda-chuva. E com a vantagem de ser "made in Timor Leste" e não importado da China...


Chegado a casa da Nafreana, foi a desilusão: a mãe reconheceu o meu carro e veio ter comigo e disse-me que ela estava agora a estudar em Ossu. Lá se foi a possibilidade de tirar mais uma fotografia dela. Há alguns meses atrás tinha lá estado e ela também não estava pois tinha vindo para Dili! Eu ao encontro dela e ela ao meu desencontro... Mas deixei com a mãe uma moldura em que tinha colocado as várias fotos dela ao longos dos últimos 3 anos. A mãe ficou, claro, encantada...


A criançada da vizinhança reconheceu-me também e veio pendurar-se no carro fazendo as macacadas do costume.
A casa da Nafreana fica num local muito aprazível, rodeada de arrozais em socalcos, socalcos esses que na região existem em vários locais.


Os arrozais estendem-se quase até Venilale e fui tirando fotos ao longo da estrada, uma forma de passar o tempo pois a mãe da Nafreana tinha dito que estava à espera dela.


A 2 kms de Venilale voltei para trás e parei novamente junto da casa para ver se a moçoila tinha chegado. Nicles, batatóides! De Nafreana nem sinal. Acabei por me meter de novo à estrada e regressar, ainda debaixo de chuva, a Baucau. No caminho tive de passar pelo "buraco da agulha" criado pela queda de uma árvore de grande porte.



Domingo amanheceu com o céu todo encoberto mas não chovia. Depois de "matabichar" meti-me à estrada e lá fui eu a caminho das duas zonas que queria ver e fotografar: a baixa do Seissal e Laga. O sol, entretanto ía aparecendo "afastando" uma parte das nuvens.

A zona do Seissal estava linda, com os campos de arroz semeados há pouco tempo e verdinhos, verdinhos, como só um arrozal consegue ser. Aqui e ali ainda havia pessoas a trabalhar nos campos. Alguns camponeses usavam agora, em substituição dos búfalos para pisotearem o terreno de cultivo, os motocultivadores que o Governo comprou e cedeu a alguns deles.


A planície do Seissal proporciona também imagens espectaculares dos dois Matabean: o "feto" (mulher), à esquerda, e o "mane" (homem), à direita. Por vezes consegue-se mesmo fotografá-los reflectidos na água dos arrozais.


Chegado a Laga, recordei a imagem da igreja local, onde decorria a missa matinal.


Antes de ir a Laga tinham-me também falado na "tranqueira" local. Perguntei onde era a uma moça que por ali estava mas ela ou não sabia ou não me compreendeu. E fiquei na mesma.
Segui então para apanhar a estrada para Baguia, de onde, um mês antes, tinha tirado umas fotos muito boas dos terrenos preparados para receber as plantas de arroz.

Acima e abaixo: a mesma área da várzea da ribeira de Laga
no início e no fim de Março/2011

Na zona de onde tirei as fotos há um conjunto de casas de tipo tradicional ("melhorado") da região. É em Butufalo de Laga (8º 28',633 S + 126º 36',09 E + 65mts), de onde se vê também uma paisagem espectacular dos dois Matabean, o "feto" mais próximo, e o "mane", logo a seguir.




A primeira parte da "missão" em Laga estava cumprida. Faltava dar com a "tranqueira". De regresso a Laga, vi na estrada um "katuas" que pensei ser boa fonte de informação. E assim foi: indicou-me que mais adiante estava um desvio para a esquerda que permitia chegar até lá. E lá fui eu mais o meu "Jaquim" ladeira acima até chegar a um planalto por cima da povoação. "Esta gente sabia onde colocar este tipo de edifícios", foi o meu primeiro pensamento: num alto, dominando a paisagem em redor e os acessos.


As muralhas da "tranqueira" estão bem conservadas mas a casa de habitação no interior está em ruínas. A planta do "castelo" é interessante pois em dois cantos diagonalmente opostos, permitindo cada um controlar dois lados do quadrado, há torreões redondos que embora baixos são eficazes na sua função de vigia.

Mas o que mais me admirou foi a existência, a poucos metros da construção abaluartada, do edifício da antiga Administração portuguesa. É um edifício que tem sinais de ter sdo utilizado pela tropa indonésia e isso terá ajudado a salvá-lo da ruína quase certa, como o que aconteceu com as residências de funcionários existentes em Venilale.


Trata-se de um edifício (facilmente?) recuperavel para turismo, por exemplo para uma pequena estalagem/parador quer para beneficiar da vista, espectacular, que dali se tem e permitir a visita da região quer para apoio aos que, de Dili, procuram a ponta leste da ilha, nomeadamente Tutuala e o Jaco.




Terminada a "romaria", estava na hora de regressar a Baucau. E foi no caminho de regresso que mais uma vez me deleitei com a visão dos arrozais, dos Matabean e... não só!


sábado, 12 de março de 2011

Seloi Kraik

No exacto momento em que me preparava para escrever esta nota dei comigo a pensar: "noutra encarnação terei sido marinheiro? Ou caixeiro viajante? Ou almocreve? Porque é que tenho o bichinho do passeio?!..."
Seja qual for a resposta o certo é que no feriado passado --- que aqui foi na "quarta-feira de cinzas" --- meti o nariz no ar, prescrutei as montanhas em torno de Dili, constatei que havia poucas nuvens e decidi: "é hoje! É hoje que vou subir a montanha e ver como está o vale de Seloi Kraik nesta época de sementeira de arroz!"
A minha esperança era de que esta estivesse em curso, tal como lá para os lados de Baucau, Seiçal e Laga, e proporcionasse fotos bonitas, com o pessoal trabalhando nos campos e a água reflectindo o azul do céu! (além de marinheiro, caixeiro viajante ou almocreve devo ter sido poeta... :-) )

"Se bem o pensei melhor o fiz" e passado poucos minutos estava a começar a subir a ladeira para Lahane, às portas de Dili.
É nessal altura que vejo na borda da estrada um senhor que ao ver-me sózinho no carro me olha com os olhos de quem diz "dá-me boleia?". Por princípio não gosto de dar boleia porque se houver um azar fico metido numa alhada pois não há seguros... Mas não sei porquê --- terá sido o sorriso suave do senhor? Terá sido o ar cinquentão e calmo dele? --- parei e baixei o vidro do lado do passageiro. Ele perguntou imediatamente num português correcto para onde eu ía e respondi-lhe "Aileu! ou melhor Seloi Kraik!". A resposta, de todo inesperada, veio logo de seguida: "Eu sou o chefe de suco de Seloi Kraik! Pode dar-me boleia até lá?!...". A minha resposta também foi (quase) imediata --- foi só o nanosegundo necessário para pensar que tinha companhia falante de portuuês e um cicerone da primeira água: "Está bem! Entre!"

Entrou, acomodou-se, e identificou-se: "O meu nome é José Domingos Pica!" Achei piada ao nome e pensei logo que, com um nome daqueles, tinha andado por ali mãozinha de alentejano... O famoso Dr. Pica, o dux veteranorum mais famoso de Coimbra, não era de lá?!...


Perguntei a razão do nome e ele disse-me que tinha sido baptizado com 13 anos, em 1964, por um furrriel do exército português que prestava serviço em Aileu, um tal Elisiário Domingos Pica. Por isso ele se chama José Domingos Pica.

E conversando, lá fomos andando até que vimos duas motos paradas na beira da estrada e numa delas uma senhora na "garupa" com um bébe ao colo. Ele pediu para parar pois... era a mulher! Parámos e senti-me na obrigação de dizer se ela queria vir no carro. Convite aceite, seguimos viajem converando e maldizendo, aqui e ali, quem deixava as estradas chegarem a tal estado durante anos e anos... ;-)


Agora com mais passageiros, não dava para me distrair muito com a paisagem e tirar umas fotos... Mas lá fomos andando até chegarmos ao alto da montanha que rodeia Dili, quando se deixa de ver a cidade cá em baixo e se passa a ver o extenso vale onde está Aileu e que é "coroado" pela presença, ao longe, do Tatamailau, o ponto mais lato de Timor Leste, quase sempre coberto por nuvens.


Chegados cerca do Km 36 desviámos para a direita para apanhar a estrada que dá acesso ao vale de Seloi Kraik e que segue para Gleno. Passados uns 3-4 kms o vale abre-se à nossa frente quase por inteiro depois de mais uma das curvas da estrada --- desde Dili até ali devemos ter feito... perto de 1000! Não há zeros a mais, não!
Um pouco mais adiante está o meu "posto de observação" preferido e que tenho fotografado ao longo dos anos uma e outra vez: junto a uma árvore que surge fora da estrada, um pouco abaixo desta.



O vale surge aqui em todo o seu esplendor e extensão, com os arrozais em primeiro plano, a lagoa em segundo e, ao fundo, "presidindo", o Tatamailau --- encoberto, mais uma vez, pelas nuvens!
Primeira constatação: a sementeira já estava completa e não havia ninguém a plantar o arroz nem quadrados cheios de água esperando a sementeira e reflectindo o azul do céu... Paciência! Mas estava a meus pés aquela belezura toda, de um verde verde como só os arrozais conseguem ser!
Mais adiante saímos da estrada Aileu-Gleno e tomamos o desvio (para a esquerda) para o vale propriamente dito, em direcção à casa dos meus passageiros de ocasião.
Pelo caminho dei com uma bela uma lulik que não resisti a fotografar ao mesmo tempo que o chefe de suco me convidava para a inauguração da sua própria uma lulik --- que iria começar a construir dentro de 2-3 meses... :-)


Estavamos quase a chegar a casa do chefe de suco quando ele me indicou o seu "kantor", a sede do suco.


Finalmente em casa! Muito agradecido, o chefe não quis deixar-me partir sem me oferecer um tais mane. Agradecido, disse-lhe que iria tentar saber alguma coisa do seu padrinho de baptismo, de que não sabia nada desde que partira de Timor, há mais de 45 anos!

E lá vim eu, de regresso a Dili, a cerca de 2 horas de distância apesar de estar a menos de 45kms da cidade.

No caminho, ainda no vale, deu para ver uns agricultores que preparavam a terra com um dos vários motocultivadores oferecidos pelo governo e o inevitável cemitério de beira de estrada...



Mais adiante, após mais uma curva da estrada, deparo com esta paisagem:


Chego finalmente à estrada Aileu-Dili e rumo a casa não sem antes pensar que se fosse noutras circunstâncias atrevia-me a ir a Aileu comer o melhor frango de caril do hemisfério sul... :-)

A viagem de regresso foi feita em 1h30m, com direito a paragem aqui e ali para tirar mais umas fotos, nomeadamente ao renovado conjunto de escolas no suco Madabeno e a uma das uma lulik mais fotografadas de Timor Leste, ao km 30 da estrada.


Por fim, já em Dare, deu para fotografar a placa que no local onde estavam as antigas placas do monumento ali existente oferecido pela Austrália, assinala as "deambulações" das placas originais --- sem referir verdadeiramente o conteúdo original destas...


Promessa feita, promessa cumprida: no dia seguinte andei a "xeretar" as listas telefónicas e não dei com o nome do padrinho do meu passageiro. Mas dei com um nome muito parecido que pensei ser familiar próximo; talvez irmão ou filho.
Feito o telefonema, veio a notícia que temia: quem me atendeu era o irmão do dito Elisiário e informou-me que este tinha falecido há cerca de 4 anos. Mais, fiquei a saber que o nome do chefe de suco reproduzia, ipsis verbis, o nome de um terceiro irmão, também já falecido. Ao baptizar a criança de 13 anos o furriel português tinha homenageado o seu irmão!

domingo, 6 de março de 2011

Fui lá mas voltei...

Chegados ao destino (no suco Afaloicai, quase na fronteira entre os distritos de Baucau e Viqueque), começaram as apresentações. Único "malae" nas redondezas, percebi que havia uma especial deferência para comigo. E curiosidade, muita curiosidade pelo "malae mutin boot"!... :-) (tradução a meu favor: "estrangeiro branco entroncado...").

Seguimos de imediato para junto do caixão e prestámos as nossas homenagens ao falecido, entregando uma coroa de flores em nome da instituição e, a cargo de uma das colegas, fazendo as preces usuais na ocasião. Ao mesmo tempo a viúva, por sentimento mas também cumprindo a tradição, carpia o seu falecido marido. A cena veio a repetir-se sempre que chegava um novo grupo de visitantes.


Depois das homenagens prestadas e de descansarmos um pouco chegou a hora do almoço. Nestas ocasiões, porque há sempre pessoas a deslocarem-se de longe, é obrigação da família, no que é ajudada pelos amigos e familiares, prepararem refeição para alimentar os "convidados".
Esta não é a refeição principal, que decorreu mais tarde, já ao fim do dia, e duraria até de manhã, à hora do enterro ("às 10h, mas as horas aqui são elásticas...", disse-nos o nosso colega filho do falecido). Nessa ocasião teriam de trepar a montanha com o caixão às costas durante cerca de 10kms para o depositarem no cemitério mais próximo.
Entretanto estive à conversa com um dos vizinhos que, no seu português impecável ("fiz a escola portuguesa, senhor!"), lá foi dizendo que estava quase a fazer 80 anos e que era da zona da "várzea" (leia-se, terrenos mais a sul e abaixo na montanha onde se cultivava o arroz) mas que há muitos anos se tinha mudado para aquela zona "para fazer horta" (cultivar vários legumes). "Aqui há tudo, senhor! Aqui tem tudo!". E eu a pensar, olhando em redor, que não tinham nada... Na verdade o conceito de "ter" e de "necessidades" é muito relativo!
As habitações eram pouco mais que rudimentares, com terra batida no interior. E a casa de banho a que tive de recorrer nos preparativos do regresso --- "quem vai para o mar avia-se em terra..." --- era... uma sanita indonésia, daquelas em que as pessoas têm de ficar de cócoras... Mais nada.


Preparavamo-nos para nos despedir quando nos vieram dizer que, em mais uma deferência para connosco, íam fazer uma "procissão" tradicional, em que as pessoas transportam as suas oferendas para as cerimónias.
A abrir dois porcos pendurados de varais de bambu e depois mulheres com cestos de arroz e, num caso, vários "tais".


Finalmente pusemo-nos a caminho para o regresso. Faltavam 5 mins para as 3 da tarde, cerca de 2h depois de termos chegado.


Pelo caminho, a mesma paisagem abrupta dos contrafortes do "Matebian feto".



Até que chegámos novamente a Baguia. Só então reparei que, numa curva da estrada, surgiu um forte. De máquina em riste, lá consegui apanhar uma imagem de um dos dois torreões e do frontão do mesmo onde, embora algo desvanecidas, se podem ver as armas portuguesas. Vim posteriormente a saber que ali tinham residido dois amigos meus, irmão e irmã, cujo pai era o chefe do posto nos fins dos anos 50.

 

E o caminho continuou até reencontrarmos o grupo que víramos de manhã a plantar arroz e que continuava a sua faina. Assim que me viram no alto da estrada com a máquina em punho, começou a festa... E eu que os queria apanhar a trabalhar! O que vale é que alguns resolveram "posar" para a imagem em plena actividade de plantio do arroz.


Mais alguns quilómetros à frente e damos com a paisagem abaixo: estavamos de volta ao "Taci feto", com a costa junto de Laga e Baucau.


E já no final do percurso até Laga, apanhamos esta paisagem espectacular, do vale preparado para o cultivo do arroz. Foi, provavelmente, a melhor imagem que retive do percurso. 


Chegados a Laga rumámos a poente e depois de um desentorpecer de pernas na Pousada de Baucau, pusemo-nos a caminho de Dili, onde chegámos... 16h depois de termos partido!... Uf!...