quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Arqueologia industrial em Dili: a fábrica de tijolo de Fatumeta

Há dias assim... Sem esperarmos damos com uma "pérola" que desconhecíamos... É disto que eu gosto...

Na verdade, eu já conhecia a fábrica de tijolo de Fatumeta, depois do conhecido Bairro Pité (Saúde, sr. Pité!...), mas só a tinha visto de fora, da estrada, com o seu exterior algo bizarro, com uma chaminé a ameaçar desmoronar-se e um edifício mais alto de um lado e muito mais baixo do outro...
Mas desta vez foi diferente. Andando no passeio com mais 3 amigos, um deles "puxou-nos" para o interior do terreno onde está a fábrica para a explorar. Foi o que fizemos.

Primeira surpresa: o forno grande, rectangular, que eu conhecia, "esconde" um outro, redondo, muito mais pequeno, que era usado para produzir quantidades mais pequenas de tijolos. A fábrica é, pois, um pequeno "complexo fabril" que se encontra num estado de conservação geral que se pode considerar muito bom --- se considerarmos os anos que tem e o facto de há muito não ser usado .



Vistos os edifícios por fora, "espiolhámos" ambos por dentro. Primeiro o mais pequeno, circular e com tecto em abóboda.




Depois o forno maior, com um "pé direito" num lado muito maior que no outro, dando-lhe um aspecto algo esquisito de edifício que parece que se afundou de um dos lados.
Primeira surpresa: subindo para o tecto do edifício vericia-se que este é todo "sarapintado" de buracos que são respiradores/chaminés que lhe dão um aspecto algo inesperado e sui generis.


Passados para o interior do forno, verifica-se que ele é, afinal, um imenso túnel abobadado onde se podem ver (pontos mais claros na foto abaixo) os respiradores espalhados pelo túnel. Lamentavelmente, este está cheio de lixo que até nem é difícil de retirar, o que daria ao conjunto um aspecto mais agradável e de verdadeiro espaço museológico como deve ser tratado.



Testemunha de um passado que se adivinha produtivo, um tijolo quase inteiro permanece por ali.


Voltando ao conjunto do espaço, mais dois elementos a assinalar: a presença de carris que serviam para vazer circular as vagonetas com matéria prima e produto acabado. Relatos outros remetem para estes carris virem de alguns quilómetros, que seria a fonte da matéria prima, e se estenderem até ao porto de Dili, por onde seria escoada parte da produção para outros pontos da ex-colónia. Nas obras de reconstrução do antigo "Liceu Dr. Francisco Machado", em Dili, que decorreram há uma dezena de anos os empregados ficaram muito admirados quando, ao retirarem a raiz de uma ávore de grande porte que foi necessário deitar abaixo, viram surgir um bocado destes carris.


Nota curiosa, no local há uma placa que dá conta do facto de Xanana Gusmão ter utilizado estes fornos para, em vários momentos da luta de resistência, se abrigar.


Uma palavra final para o "encontro imediato" mais inesperado: o que se pensa ser o último ou um dos últimos antigos trabalhadores da fábrica, o sr. Manuel Rangel, um homem de 82 anos, ainda rijo, que veio de Maubisse ainda jovem. Uma "história de vida" que deve valer a pena explorar... (ouviu, Anabela?!... Rssss)

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