sábado, 22 de junho de 2013

Ainda Oécussi!... (Fim? A ver vamos...)

As duas viagens que fiz a Oécussi num curto espação de tempo deram pano para mangas...
Esta crónica será, provavelmente, a última sobre o tema. A ver vamos...

Começo por voltar à viagem de Dili até à fronteira de Batugadé. A estrada está, finalmente, a ser objecto de profunda melhoria e alguns, poucos (5 ou 6?) quilómetros a seguir à chamada Ponta Carimbala, entre Maubara e a Loes, demo-nos com este espectáculo:


A fim de consolidar a encosta e evitar deslisamentos de terras para a estrada, uma escavadora derrubava parte dos terrenos acima do nível da estrada, dando a sensação de que poderia cair a qualquer momento. Claro que o material vinha todo parar à estrada e por ali ficámos quase três quartos de hora até que ela interrompesse o seu trabalho e entrasse am acção uma pá que foi empurrando terra e rochas até abrir um caminho por onde, finalmente, puderam passar os carros e motociclos que entretanto se foram juntando na zona.


 
 
Antes, porém, já me tinham feito "fernicoques na cabeça" os muros que estão a ser construidos ao longo da estrada para a proteger de derrocadas e enxurradas.
 
 
É que, ou muito me engano ou os muros estão contruidos "ao contrário" !!!! De facto, sendo o "corte" do muro (bem) um trapézio rectangular, a face mais inclinada deveria estar do lado da estrada e não do lado da montanha, como a foto acima bem ilustra... Assim como estão o mais provável é que quando vier uma enxurrada ou uma derrocada maior o muro tombe para a estrada em vez de desempenhar a sua missão (assim tornada impossível...) de impedir os detritos de cairem na estrada... "Engenhêres"!... Salvo erro indonésios, a quem terá sido dada a subempreitada... E não há quem impeça de continuarem a fazer burrice?
Aliás, a própria derriba de materiais das encostas nos parece "estranha" pois, aparentemente, deveriam ser feitos socalcos a serem fixados com árvores ou arbustos. Cadê os socalcos?!...


E sem mais demora lá seguimos caminho até às margens da ribeira Loes, onde almoçámos, e depois para a fronteira de Batugadé.

Aqui houve "fita"... Tendo recebido o meu passaporte apenas na véspera (estava nos serviços de emigração para obter a autorização especial de residência prolongada), não tiva outra hipótese que não fosse seguir a mesma estratégia da anterior viagem a Oécussi: fazer-me de anjinho e aparecer sem o visto que deveria ser obtido na embaixada indonésia em Dili. Como se nas fronteiras terrestres existisse o "visa on arrival" existente nos aeroportos. Mas não há... Mas os guardas fronteiriços ganham pouco e as malandras das "verdinhas" são atraentes...

"Instruido" por colegas timorenses, preparei o dinheiro do visto e coloquei-o, 3 notas enroladinhas, em cima da mesa para pagar. Só que levei um sermão do funcionário que repetia que não podia ser, que tinha de informar Jakarta, etc e tal... Já me estava a ver deportado como espião... Percebi que ele estava a querer aumentar a "parada" e que, para me deixar passar "por debaixo da mesa", queria mais dinheiro do que o que estava à vista: uma nota de 10 USD (dentro do rolo estava mais uma igual e outra de 5 dólares mas ele não se terá apercebido disso). À medida que ele ia falando comigo e com a minha colega timorense que servia de intérprete fui desenrolando as notas e coloquei-as, bem esticadinhas e saparadas, presas debaixo de um livro que ele tinha sobre a mesa.
Quando se apercebeu que estavam ali 25 dólares e não apenas os 10 que ele julgara inicialmente, o "discurso" foi mudando e acabou dizendo ao mesmo tempo que punha as notas, sem recibo e sem o selo do visto (topam?!...), na gaveta: "Ok! Esta facilidade do visto no local não existe aqui mas nós facilitamos para os timorenses em transito para Oécussi mas não para cidadãos de outros países. Deixo-o passar mas olhe que é a última vez!... ". Tá bem, abelha! Assim que disse isto safei-me dali para fora e fui para perto do carro que me levaria a Oécussi. Safo!... Mas não quis repetir a cena e decidi logo que no regresso iria tentar voltar de navio, no "Nakroma", e não por terra. Se bem o pensei melhor o fiz: na sexta feira seguinte regressei de navio a Dili, numa viagem já relatada.

Na chegada a Pante Makasar passa-se por uma zona escavada na rocha onde "enfiaram" uma estrada. A visão que se tem no local é interessante, parecendo que o carro não cabe naquele verdadeiro "buraco de agulha" completamente escarpado, de um lado, e com "ligação directa" para o mar, de outro.


Pante Makasar, finalmente. Depois de uma viagem de 9h, com direito a cerca de 3h parado nas fronteiras! Apre!...

No dia seguinte tivemos uma reunião na administração do distrito de Oécussi e depois fomos visitar uma das obras que os deputados se propunham visitar para ver como estava a funcionar: uma obra de irrigação dos campos de arroz na região aproveitando a água da ribeira de Tono.
O ponto de observação (9º 16' 15"S e 124º 21' 10"E) foi junto do mercado de Tono, ali existente, e dali via-se uma parte da extensão e largura da ribeira.



Foi ali que tive uma visão do "velho do Restelo"...

... a que depois se foram juntando outros "katuas" (mais velhos) em amena cavaqueira.

Meia volta, volver!

Ao fim da tarde fui ver a partida do "Nakroma" e o pôr do sol. Eis senão quando aparece a professora portuguesa que tinha sido "responsável", duas semanas antes, pela chegada, pelas minhas mãos, das primeiras "bolas de Berlim" a Oécussi.


Mas já voltaremos a esse momento histórico... Rsss

No dia seguinte partimos para a ponta mais ocidental de Oécussi! Uma viagem cansativa, por estradas num estado lastimável, mas que foi interessante sob vários pontos de vista.

Percursos efectuados em Oécussi assinalados a vermelho

Um deles foi o termos vislumbrado um rochedo/ilhéu (Fatu Sinai) que é reivindicado por Timor Leste e pela Indonésia mas em que a posição de Timor Leste está enfraquecida por a sua existência não estar referida na Constituição do país.


Outro motivo de interesse foi ter notado a proliferação de casas "lulik" de forma cónica. Junto e normalmente atrás de cada casa de habitação há uma "casa sagrada" da família.


Motivo de interesse ainda mas aqui pela negativa foi a constatação do péssimo estado das estradas, que torna qualquer viagem um sacrifício quase "doloroso" e uma aventura de várias horas, com uma velocidade média que não deve ultrapassar os 15 kms/hora. Para menos e não para mais... :(




Interessante foi ainda deliciarmo-nos com o relevo da região, agreste mas coberto de verde. Lindo, principalmente na região de Pante Makasar.



Para um português é especialmente marcante visitar também o monumento em Lifau, a cerca de 5kms do centro de Pante Makasar, que assinala o desembarque de portugueses na região em 1515. Crê-se que antes disso (1511, a mando de Afonso de Albuquerque, já então senhor de Malaca) já tinham estado na região que hoje é a capital de Timor Ocidental, indonésio, Kupang.
Claro que não deixei de recolher uma porção de areia do local... Para a minha colecção!

Especialmente relevante foi verificar que ao monumento foi acrescentada uma "placa" assinalando a chegada, em XXII/IV/MMXIII, das primeiras... "bolas de Berlim". Rsssss


E a visita a Oécussi estava quase a terminar.
No dia seguinte, uma sexta feira 14JUN2013, embarquei de regresso a Dili no "Nakroma".
A despedida foi "em cheio", com um pôr do sol espectacular! Até a "ilha da mulher deitada" parecia mais bonita!



quarta-feira, 19 de junho de 2013

Uma "mãe" e 65 filhas...

Uma das coisas boas com que me deparei em Pante Makasar, a capital de Oecussi, foi com o lar das Dominicanas de Nossa Senhora do Rosário.
Instaladas desde 1953 num edifício de traça portuguesa bem perto do mar (e da ponte-cais onde atraca o navio que faz a ligação a Dili), a comunidade actual é composta de apenas 5 "irmãs" sendo que uma delas, com 80 anos, chegou a Pante em 1955 (saíu "empurrada" pelos indonésios em 1975 e voltou após a saída destes).



A líder da comunidade é chilena e antes de de chegar a Oécussi esteve vários anos na Bolívia. E é uma mulher "do caraças"!.. (desculpem-me a cedência a uma linguagem mais "popular"...). Não coloco aqui nenhuma foto dela porque sempre se esquivou a ser fotografada e respeito isso.

Ela, a "Madre" Marcela,  é a "mãe" de 65 crianças que ali vivem em regime de internato. Nenhuma, a não ser uma pequena minoria, paga seja o que for para estar ali. As poucas que pagas é de filhas de funcionários timorenses que querem que as filhas tenham uma educação disciplinada e embora residam em Pante Makasar pediram para as filhas ficarem no lar mediante o pagamento de uma "mensalidade" para a alimentação.

Uma diversão ao cuidado da Madre Marcela: domesticar um morcego! Que por lá anda nos beirais e que, reconhecendo o chamamento da sua protectora, voa para ela quando o chama.





Vocês já tinham visto um morcego domesticado? Eu não!



A principal "raison d'être" do "lar" é abrigar moças que desceram das montanhas de Oécussi para estudarem na cidade. Cerca de 80% das crianças têm esse background.
Só que as razões que as levam a ir para o lar são diversificadas... Há a moçoila de 17 anos que fugiu de casa aos 14 porque os pais a queriam casar para ganharem o dinheiro e outros bens do "barlaque" ("alambamento" em Angola, "lobolo" em Moçambique...); há a criança de 7 anos abandonada pelos pais na sequência de uma separação; há a criança que fugiu de casa com 11 anos porque ia ser vendida pelo pai por um búfalo (tal era a fome na família...); há a menina de um pouco mais de 3 anos que ainda se "descuida" nas cuecas com frequência, sinal, quase certo, de um desequilíbrio emocional grave; etc, etc, etc

E apesar de todos estes sofrimentos sente-se que se está no meio de uma "família" feliz. Q.b.

As crianças vão à escola fora do lar e as mais velhinhas ajudam a tomar conta e enquadrar as mais novas. Algumas delas, dando provas de uma enorme maturidade, são das últimas a deitarem-se e das primeiras a levantarem-se para ajudarem as "madres" nas primeiras tarefas da manhã, nomedamente preparar, a partir das 5 da manhã, o "matabicho" para tanta gente.

Foi esta "família" que há dias me cantou, para agradecer uma pequena ajuda que dei, o "Do re mi", a música do "Música no coração".



Claro que fiquei emocionado pois não esperava nem o agradecimento nem a qualidade da intepretação. Lindo!

O "lar" está instalado em instalações que, depois da destruição causada pelas milícias em 1999, foram recuperadas com o apoio da cooperação espanhola.

O edifício mais antigo, a "casa mãe", é do tempo da administração portuguesa e foi queimado em 1999, preparando-se a sua recuperação ainda para este ano.


"Espicaçado" pelo meu amigo João Tolentino, que se propõe fazer a maquete do edifício antigo, acabei por fotografar a planta do mesmo.


E aqui é que vem a "desgraça"! Perante um orçamento "significativo" de uma empresa portuguesa de construção, a recuperação do edifício acabou por ser adjudicada a uma empresa indonésia... por cerca de metade do valor!
Acredito que a diferença se justificará principlamente pela diferente qualidade dos acabamentos. É que tudo indica que a empresa indonésia vai reconstruir o edifício com materiais mais baratos (telhado de zinco pintado de vermelho, chão de azulejo branco de "casa de banho", etc).

É preciso "salvar" o edifício desta "mutilação" das suas características. Quem pode dar sugestões? Já fiz qualquer coisa mas "qualquer coisa" é pouco... Não chega!

Last not least... O único apoio oficial que o Estado Timorense dá ao lar o é um conjunto de 32 sacos de arroz, por trimestre, para a alimentação das crianças. Por isso é que são necessários mais ajudas, individuais ou colectivas. Vamos nessa?!... Eu sei como e se quiser deixar um comentário depois contacto.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Oecussi!

Tenho estado um bocado perguiçoso em escrever e tenho algumas crónicas em atraso. Por isso decidi escrever do fim para o princípio... Isto é: da última "aventura" para as anteriores, às arrecuas...

E a última "aventura" foi... em Oecussi! Mas outra anterior também se passou lá... Vou tentar fazer um "mix" das duas. Assim a modos que como um "coquitéil"!... Valeu?!...

A base foi a última viagem, "acabada de acabar"... ontem, 15 de Junho, às 5 da manhã. Depois de uma viagem de navio, o "Berlin Nakroma".


Diga-se que este navio faz o transporte de tudo um pouco: pessoas, vacas, cabritos, galos das lutas de galos e até lenha! As condições de transporte da maioria dos passageiros são precárias, com muita gente dormindo ao relento ou pelos corredores (a viagem dura umas penosas 12 horas porque o navio é um ronceiro do caneco!... Sorry!...).
Quem não está para isso e tem a po$$ibilidade de o fazer, faz um negócio manhoso com os tripulantes e viaja no que seriam as suas cabines. Com ar condicionado e em beliches, até se faz uma viagem aceitável. Foi o que me aconteceu ontem. Não preguei olho e aproveitei para preparar as minhas fotos e conversar um pouco na internet. Quando tinha sinal... E ver o ambiente e o luar...

Para terminar este capítulo "Nakroma" diga-se que na anterior estadia, porque a maré estava muito baixa, assisti a um espectáculo que raia o caricato: pessoas a desembarcarem em Oecussi com a prancha de desembarque bem afastada do pontão pois uma maior aproximação signiticaria o encalhar do navio. Resultado: ou se aventuravam por dentro de água com os seus pertences à cabeça ou esperavam que um pequeno beiro as transportasse à praia...

 

Para evitar situações semelhantes é que, numa oferta do Japão, se está a construir um terminal novo que fará destas imagens apenas uma página da "história"...


Novo porto de Pante Makasar vendo-se
(parte metálica ao fundo) a rampa a que
passará a acostar o "Nakroma"

Espectáculo dentro do espectáculo da estada do navio no actual local são as cenas de crianças a saltarem dele (quando a maré está alta) ou da ponte-cais (quando a maré está mais baixa) para a água. Quando vim a maré estava alta e eles atiravam-se "acrobaticamente" do navio, de uma altura de uns 6 ou 7 metros. Infelizmente não tinha a máquina fotográfica comigo... Quando vi o "espectáculo" eles atiravam-se da ponte-cais.



Adiante.

A viagem Dili-Oecussi foi feita de jeep. Uma viagem "dura", que com paragem para almoço na "zona de serviço" junto à ribeira de Loes e nas quatro fronteiras (2 em Batugadé e duas à entrada de Oecussi) que temos de atravessar, leva cerca de 7 horas. Uma "chateza" que o governo timorense ainda não conseguiu, apesar de alguns esforços tímidos, reduzir por os indonésios não sentirem nenhuma necessidade de facilitar a vida a quem passa em transito para ou de Oecussi...

A "área de serviço" perto da ribeira de Loes

A linha vermelha que assinala a fronteira entre
o Timor indonésio (à esquerda) e Timor Leste
em Batugadé/Mota Ain 

A primeira surpresa após se cruzar a fronteira no sentido nascente-poente é o estado da estrada que a liga a Oécussi. Como que a querer dar uma bofetada de luva branca aos timorenses por terem ousado tornar-se independentes, a estrada foi arranjada e está toda arranjadinha, com sinais horizontais de demarcação das faixas de rodagem e tudo. Um (quase) luxo comparado com o estado da estrada em muitos quilómetros do percurso quer na parte ocidental de Timor Leste quer em Oécussi, onde logo à entrada somos recebidos por uma estrada "do tempo da outra senhora", empedrada.



O percurso na Indonésia tem poucos pontos de interesse mas vale a pena referir o porto de Atapupo e o relevo da região, pré-anunciando o que se vai ver no enclave.

Porto de Atapupo e restos de um barco de madeira


O relevo no Timor Ocidental
 
E finalmente chegamos a Oécussi, onde se entra pela fronteira de Wini (indonésia)/Sakato (Oécussi).

Como dissemos, o estado das estradas em Oécussi entre Sakato e a capital, Pante Makasar, é deplorável e exige uma solução urgente, pelo menos no que respeita ao percurso entre a fronteira e Pante.
A cidade apresenta a conhecida matriz urbana em quadrícula e é impressionante ver a visão dos "arquitectos" da cidade ao definirem avenidas e ruas em geral largas e que irão aguentar, sem grande dificuldade, o aumento de tráfego que surgirá se, como se espera, vier a ser implementado o "Master Plan" (porquê usar o nome em inglês para uma coisa que todos chamam, em português, "Plano Director"?) para o desenvolvimento do distrito.



Foi, aliás, para assistir à apresentação pública do mesmo pelo responsável pela sua coordenação, o ex-Primeiro Ministro Mari Alkatiri, que me desloquei a Oécussi na primeira vez (sem contar com uma ida em Dezembro de 2001 que me deu como brinde... dengue!).


Uma visão do futuro: Pante Makasar pós-Plano Director

Deixemos o Plano em si e registemos algum do ambiente que rodeou a sua apresentação bem como algumas contruções do tempo da administração portuguesa que merecem ser restauradas já que fazem parte do património histórico e arquitectónico da cidade e do país.

À cerimónia assistiu muita população, nomeadamente autoridades locais e, como não podia deixar de ser, houve também algumas exibições do folclore local.



Edifício, em ruínas, da antiga Administração portuguesa
 
Edifício principal do colégio das Madres Dominicanas.
As obras do seu restauro devem começar em Setembro próximo

Mas para além destes momentos e edifícios, ficaram-me na memória a geografia da região e o nascer e pôr do sol e Pante Makasar.



Hoje ficamos por aqui...
Mas há mais no próximo episódio... Me aguardem... LOL