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sábado, 18 de abril de 2009

Ali para os lados das termas de Marobo...

Quem vai até Bobonaro faz mais uns quilómetros e dá uma saltada até às famosas termas de Marobo --- ou ao que resta delas...
A estrada entre Bobonaro e Marobo não é má de todo mas os últimos quilómetros, já perto das termas, são assim a modos que... Bem... o melhor é verem com os vossos olhos!...


Mas enquanto se chega lá e não chega, dá para aproveitar a viagem e gozar a beleza natural quase indescritível.
De facto, as termas encontram-se num autêntico "buraco" no fundo de uma das vertentes da montanha que, em Timor, mais "mexe" comigo: o Cailaco. Já perto delas, é impressionante a vista que se tem até ao cimo da montanha. Sentimo-nos pequeninos, pequeninos, pequeninos!... Aquela montanha, vista dali, "esmaga-nos" ainda mais que de outro local qualquer.

Espantado fiquei também quando vi que naquela zona também se cultiva arroz aproveitando os socalcos feitos há muito.

Chegados às termas, o espectáculo que se nos depara é o que está ilustrado nas fotos abaixo: elas não são mais que ruínas. Creio que já se falou na hipótese de as recuperar mas o investimento terá de ser enooorme, não só para as ditas cujas como também para dar uma melhorada (e que melhorada!...) nos acessos. Pior do que estes só vi, já lá vão uns bons anos, o acesso à praia frente ao ilhéu Jaco, numa época em que resolveram "melhorar" a estrada, já de si horrível, despejando nela umas quantas toneladas de pedregulhos de tamanho razoável --- do que haviam de se lembrar!...

Já no caminho de regresso demos com uma "tecelã" de tais trabalhando num com os desenhos mais característicos da região (os famosos tais de Marobo só usam duas cores: o preto, predominante, e o branco, para os desenhos).



sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

"Em busca da casa perdida", uma "estória" em Bobonaro

Ao meu colega JBB "menino e moço o levaram de casa de seus pais" para Bobonaro, do outro lado do seu mundo.
O pai, então militar, tinha sido colocado como comandante do famoso "esquadrão de cavalaria de Bobonaro", em que os soldados eram quase todos timorenses.
Regressado a Portugal há cerca de 50 anos, disse-me que nunca mais esqueceu nem as montanhas da região nem a casa onde viveu mais de dois anos, chegando mesmo a sonhar com as primeiras.
Há já alguns anos que me tinha pedido para lhe arranjar fotos da região, de Bobonaro e da casa mas a verdade é que, depois de algumas tentativas frustradas, desisti. Até que disse para comigo mesmo: se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé...
Excursão combinada, partimos (eu e o meu amigo Pedro, outro setubalense em Timor) um dia do City Café (minha "casa" habitual em Dili) e metemo-nos à estrada para o que se adivinhava vir a ser uma longa viagem --- em quilómetros e em horas (estas são, aliás, a principal medida de distância em Timor... Quais quilómetros, quais carapuça!...).

Saindo pela "Dili Rock", a porta de Dili a ocidente, lá fomos de "fó-by-fó" (leia-se "4x4"...) a caminho de Bobonaro a fim de encontrar a casa onde vivera o meu colega e fotografar devidamente casa, montanhas e o que mais nos aparecesse pelo caminho.
Passados os "fornos de sal" de Tibar, as 3 ribeiras (secas, secas, secas...) de Liquiçá (ou Likisa), o forte de Maubara, a ribeira de Loes e toda a costa até Batugadé, virámos para sul a caminho da Maliana e, depois, de Bobonaro. Esta vila dá o nome ao distrito de que a capital é agora Maliana. Juntamente com o distrito do Suai são os distritos mais ocidentais de Timor Leste --- sem contar com Oecussi ---, fazendo fronteira com a província indonésia que compartilha a ilha.

Depois de uma visita ao mercado e de passarmos junto ao cemitério onde se vê a campa de um liurai local morto durante a ocupação japonesa, seguimos pela estrada --- pois: estrada é mais alcunha que outra coisa... --- a caminho de Bobonaro "city".

Maliana: mercado
Maliana: campa de liurai no cemitério

Para lá chegarmos temos de subir parte da montanha de Cailaco (vd imagem do Google no final da mensagem abaixo). Da estrada dá para ver a extensão do chamado vale de Maliana zona agrícola fértil e bem irrigada de águas, onde se produz parte do arroz de Timor.

Vale de Maliana visto da estrada para Bobonaro;
note-se a extensa queimada no primeiro plano

Contraforte do Cailaco, à saída de Maliana para Bobonaro

À medida que nos aproximavamos do Cailaco, qual "costeleta em pé" como costumo descreve-la, aconteceu-me o que já tinha acontecido da outra vez, em 2002, em que tinha andado por estes lados: a montanha parece ter um feitiço especial que faz com que eu não consiga tirar os olhos dela enquanto estou à sua vista. É uma paisagem de tirar o fôlego, aquelas vertentes quase a pique verdejantes. Não há hipótese: não consigo desviar os olhos, como que procurando reter a sua imagem na retina per omnia secula seculorum. E-S-M-A-G-A-D-O-R-A!

Cailaco, a "costeleta em pé". E-S-M-A-G-A-D-O-R-A!

Pelo caminho demos com uma família construindo uma casa, vendo-se na foto abaixo a estrutura de paus que constitui o telhado e o trabalho de cobertura do mesmo com colmo.


Mais à frente, já no início da estrada que desce para Bobonaro, demos com uma "anguna" parada para substituir um dos pneus. A "belezura" do pavimento da estrada --- ah! ah! ah!... Chamar estrada "àquilo" é giro... --- tinha feito das suas...

E finalmente chegamos a Bobonaro. Autenticamente parada no tempo, a vila é hoje uma sombra do que deve ter sido no passado, com muitos edifícios em péssimo estado de conservação, nomeadamente os de natureza administrativa do tempo da administração colonial portuguesa. É pena que estejam tão longe e seja tão difícil lá chegar; a recuperação da cidade poderia fazer dela um quase que museu ao ar livre que atrairia muitos turistas.


Com as indicações de um "bobonarense" ( :-) ) falando um português fluente, fomos "em demanda da casa perdida", afinal a causa de tão longa viagem.
No final da rua principal, ela aí está à nossa frente! Com dos 13 degraus que o JBB se tinha cansado de referir: "Olha que tem 13 degraus! Conta-os para ver se é verdade ou não!". É verdade, sim, pá!
O que nos chamou a atenção foi o belíssimo estado de conservação em que se encotnra. Será mesmo a melhor casa da povoação. O "mistério" foi esclarecido depois: a casa foi entregue e está à guarda dos irmãos claretianos da missão no local.

Aqui está a casa, causa de uma jornada de cerca de 11h de Dili a Dili.
Abaixo a "Monstanha da Mesa", uma das que povoam os sonhos de JBB

O JBB tinha-me dito que a casa era próxima do antigo comando do quartel, onde o pai trabalhava, a meros 50 m de casa, e da entrada do próprio quartel.
Esta é constituida por um portão com dois pilares encimados pelo escudo português. Um deles já despareceu e o outro está em muito mau estado de conservação, meio destruido.


Passado o portão, dá-se com uma pequena ladeira que desce para o terreiro, grande, onde estão as diversas instalações do quartel. Algumas foram construídas pela adminsitração indonésia.


A nossa (minha) missão estava cumprida. Podia agora iniciar a viagem de regresso a Dili. Porém e porque estavamos perto, decidimos dar uma saltada às famosas Termas de Marobo (hoje em ruínas). Mas isso fica apra outro dia que esta crónica já vai longa.

Quando, regressado a Dili, enviei as fotos ao meu amigo, recebi como resposta um "muito obrigado" e a confirmação do que eu já suspeitava que acontecesse: as lágrimas vieram-lhe aos olhos! Saravah, JBB!