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sábado, 2 de outubro de 2010

A "loja" de artesanato de Oécussi em Dili

Desde o ano passado que assentou arraiais na rua ao lado do Hotel Timor. Trata-se de um timorense de Oécussi que vende produtos oriundos do enclavei --- embora desconfie que alguns são da província indonésia vizinha, NTT... É, certamente, a melhor "loja" de artesanato de Oécussi em Dili.


Particularidade do seu comportamento é o de que tem por hábito saudar quem passa, interessado ou não nos seus produtos, com uma quase impecável continência.


Quase não falando tétum --- adivinho que a sua língua materna seja o baikeno ---, é um sarilho para a gente se entender, nomeadamente para discutir preços. Mas o que é certo é que no ano passado lhe comprei um par de portas e este ano já lá vão uns kini-kini no meio de outras coisas menores.


A compra dos kini-kini, particularmente, deixou-me quase à beira de um ataque de nervos... :-) Tendo eu compreendido que ele pretendia 50 USD pelo par, fiz a minha oferta "irrevogável": 30 "paus". Recusou liminarmente e eu voltei costas.
Mas eu tenho a cabeça dura e quando fixo os olhos numa "presa" é difícil largá-la...
Mais tarde voltei lá. Afinal os kini-kini não eram dele mas sim de um outro companheiro que entretanto aparecera. E o preço subiu de repente para o que eu entendi serem... 80 dólares. Nem morto! Depois de muita conversa sobre o preço o homem alinhou um conjunto de notas para dizer qual o preço. Afinal não eram 50, nem 80 mas sim... 100 dólares.
Na brincadeira bati com o indicador na cabeça e disse-lhe que estava "bulak"!... E virei costas mais uma vez e fui almoçar ao Hotel, onde amigos me esperavam.
Mas a "azia" continuava. Ainda por cima uma amiga minha e usual "parceira" em incursões do mercados dos tais e feiras de artesanato caíu na "asneira" de me dizer que era raríssimo ver kini-kinis à venda. Bem dito bem feito: o fruto "proibido" é mesmo o mais apetecido e terminada a refeição disse aos meus amigos "vou ali num instante e já volto!".
E lá voltei eu ao "ataque". Palavra puxa palavra, nota puxa nota, chegámos finalmente a um acordo: "arrematado ao malae boot por 50 dólares"! E lá vim eu chocalhando os kini-kini rua fora todo satisfeito da vida... Mais uma peça para a minha "uma lulik"... :-)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Uma lulik

A "uma lulik" é a casa sagrada de qualquer família timorense. Entenda-se: família alargada, e não família nuclear, como tradicionalmente a conhecemos no Ocidente (e não só). Aqui como em quase todas as sociedades economicamente menos "afluentes", o que interessa é o grupo e não o indivíduo.

Um exemplo muito interessante de uma lulik é a que está quase no cima da serra que circunda Dili, na estrada para Aileu, a cerca de 30 kms de Dili.

Em 2005 ela tinha acabado de ser construída e apresentava o aspecto abaixo: linda, toda "direitinha", uma belezura!

À sua frente, como usual, o altar circular de pedras com o conhecido tronco "trifurcado". E nem vestígios da cruz cristã.

Há dias voltei a passar por lá e lá estava ela mas agora quase irreconhecível por causa dos "apêndices" que lhe juntaram: um pequeno abrigo, um letreiro e uns mastros. Provavelmente cansados de dar tanta explicação aos passantes, os "curadores" resolveram pespegar à sua frente um enorme letreiro que esconde um bocado da casa.
Enfim: assim, com um bocado de mau gosto, se alterou significativamente o visual da casa sagrada, agora meio-escondida.

Numa manifestação que já vira noutro local, acrescentaram também uma cruz. Não vá o diabo tecê-las...

terça-feira, 28 de julho de 2009

Como íamos dizendo! Ou "Hurrah!... Finalmente!..."

Finalmente a "marvada" resolveu aceitar o carregamento de fotos! Cá estão as prometidas de alguns dos tais da exposição na "Casa Europa" referida na 'entrada' anterior.

Tais de Oecussi

Tais de Oecussi

Tais feto de Lautem

Tais de Lautem

sexta-feira, 24 de julho de 2009

"Marvada" internet...

... que não me deixa fazer o "upload" de fotos de "tais" da exposição dos mesmos organizada pela Fundação ALOLA na "Casa Europa" --- na antiga "Intendência" portuguesa.
Para quem está em Dili "et ses environs" vale a pena dar lá uma saltada até 12 de Setembro. São poucos mas bons.
E comprem o catálogo (5 USD) para recordação e ilustração pessoal pois tem informações interessantes para não especialistas no assunto.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Continuando a falar de artesanato...

Característico do artesanato timorense é, também, um vasto e diferenciado conjunto de peças de "prata timorense" obtida a partir de moedas de prata antigas --- principalmente "patacas" mexicanas do séc. XIX, então a moeda de referência no sudeste asiático onde eram introduzidas via Filipinas --- que são derretidas e misturadas com outro metal, principalmente e se não erro, a alpaca de outras moedas, principalmente portuguesas.


Este tipo de artesanato aparece principalmente em Dili e na zona de Ermera e inclui peças tão variadas como pulseiras, caixas de jóias, etc. Veja abaixo alguns exemplares:

Uma curiosidade em relação a duas das peças fotografadas: o kaibauk que está na primeira foto é o que serviu de base ao desenho da face comum das moedas metálicas correntes de Timor Leste; a última foto é de uma peça em exibição no Museu do Oriente, em Lisboa, e está identificada como sendo muito antiga e originária da região de Atsabe (terá sido pertença de um liurai).

domingo, 1 de março de 2009

Visita guiada à colecção sobre Timor Leste do Museu do Oriente

O Museu do Oriente, da Fundação Oriente, organizou no dia 28 de Fevereiro uma conferência-visita sobre arte timorense a cargo do antropólogo Alexandre Oliveira, que colaborou, já há alguns anos, na selecção das peças (e na elaboração das suas fichas de identificação) do Museu relativas a Timor.

Constituída por peças representativas das principais formas de arte do país (particularmente estatuetas de madeira, máscaras, peças de prata e 'tais'), a colecção, não sendo muito grande, é minimamente diversificada para se ter uma ideia da arte timorense. Infelizmente ter-se-ão perdido já, para sempre e pelo menos em algumas áreas artísticas, os "saber fazer" necessários à continuação da arte timorense, a maior parte dela relacionada com actos de culto dos antepassados ou com alguns trabalhos do dia a dia das populações.
O carácter de culto de muitos objectos mais antigos e dificuldades relacionadas com a própria conservação dos materiais e outras razões contribuem para o facto de a colecção, apesar do que foi dito acima, não ser maior, particularmente quanto ao número de 'tais' expostos (ainda que saibamos que as suas características recomendam que não se "abuse" das peças mais antigas por o colorido poder ser afectado). O que é pena...
Vejam-se abaixo algumas peças expostas (clique nas imagens para as aumentar). Que elas sirvam de incentivo para um visita ao Museu.

Máscara de prata que foi pertença de um liurai da zona de Atsabe;
é uma das melhores e mais raras peças da exposição


A estátua da esquerda é originária de Ataúro,
aparecendo vestida parcialmente, como é uso naquela ilha

Veja-se a legenda abaixo; admite-se que estas peças tenham sido feitas para substituir os cavalos verdadeiros dos falecidos que terão sido, até certa época, abatidos e enterrados perto do dono para o servirem no além. Peças deste tipo serão vulgares também em outras ilhas das Pequenas Sunda

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Artesanato de Oecussi

Nas minhas/nossas incursões no "Mercado dos 'tais'" acabei por dar com e me apaixonar ( :-) ) por várias peças do artesanato de Oecussi, o enclave timorense "incrustado" na metade ocidental, indonésia, da ilha.
No que diz respeito às peças que vêm de lá, fica-me sempre a dúvida de saber se são mesmo de Oecussi "itself" ou se são do Timor indonésio --- ou, mesmo, de alguma ilha próxima (nomeadamente de Alor, a ilha a norte de Oecussi) --- já que se sabe que há algum "trânsito" entre as ilhas.
De qualquer forma, dadas as características etnográficas da região, as diferenças entre o que é de Oecussi e o que é do Timor indonésio não devem ser tão grandes como isso.

Incentivados pela procura dos "internacionais" que estão em Dili, começaram a aparecer no "mercado dos 'tais'" peças mais "pretensiosas" (e caras) que o (até então) habitual.
Um exemplo disso são as portas representadas abaixo e que reproduzem, nomeadamente, o famoso crocodilo que, segundo a lenda, cansado,"petrificou" e deu origem à ilha.

Ainda de Oecussi são as duas máscaras que apresentamos a seguir, ambas de madeira.