quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ainda sobre a "pataca mexicana" e sua circulação em Timor

[NOTA INTRODUTÓRIA: O texto abaixo não é da autoria dos dois responsáveis habituais por este blog mas sim de um convidado a quem agradecemos a disponibilidade para colaborar connosco. Que esta "porta" agora aberta seja aproveitada por outros desde que se integrem completamente no espírito da "coisa": contar "estórias" que nos ajudem a conhecer a história de Timor (seja ela mais passada ou mais presente), os seus locais e as suas gentes.]




Talvez o tipo de moeda mais rara das que se conhecem ter circulado em Timor, seja a de 8 (ocho) reales mexicana , marcada, que se vê na foto acima. Mercê do seu valor fiduciário em prata --- cerca de 27 gramas--- tiveram boa aceitação, principalmente na Ásia. Aqui foi moeda circulada em transacções internacionais, tanto o dólar de Hong-Kong, como o florim holandês, mas a que mais se vulgarizou foi, sem dúvida, a conhecida “ pataca” ou o” dólar mexicano”, os “8 reales”, ou ainda chamado ” real de ocho “.

Em Timor foi aceite normalmente por todo o Séc. XIX, sendo amealhada pelos comerciantes, principalmente chineses ,que a marcavam com os seus sinetes para atestar comprovada qualidade. Ontem, tal como hoje, os falsários foram presença constante, e mesmo actualmente os bancos e casas bancárias na Ásia, apõem um pequeno carimbo nas notas de dólares americanos, tal como os seus antecessores fizeram com a moeda em prata.

O problema monetário em Timor, foi uma constante dor de cabeça para os diversos governadores, só se aliviando, mercê de alguma estabilidade, durante um período bem definido pós Segunda Guerra, quando a moeda se denominou “escudo”, tendo paridade total ou parcial com o “escudo “de Portugal.

Nos finais do Séc. XIX e com o Governador Celestino da Silva, tentou-se controlar a circulação da moeda, necessariamente assegurando uma melhor cobrança da carga fiscal, até porque muitos dos impostos aduaneiros, que constituíam a principal fonte de receitas do Governo da Província, eram saldados com moeda contrafeita, havendo relutância na sua aceitação por parte dos comerciantes, sendo o florim holandês preferido; moeda que o governo não possuía em quantidade. Foram então publicadas portarias (1894 e 1900) que determinavam apenas como válida e aceite moeda em circulação se marcada com punção exclusiva do Governo. Apesar de por duas ocasiões se ter regulamentado essa matéria, o certo é que tal medida não surtiu efeito, pois os negócios continuaram a efectuar-se com moeda não marcada, tal era a força do lobby comercial chinês e a inviabilidade de controlar as moedas face às transacções comerciais com o exterior. Assim, veio -se a abandonar essa medida de marcação ( 1901), subsistindo poucos milhares de moedas em circulação com a “Cruz de Cristo” como marca governamental.

Passados pouco anos foi introduzido o papel moeda privativo da Província, bem como se generalizou o uso de outras moedas, tais como a libra inglesa e o dólar americano. Contudo liurais e outros nobres, arrecadaram grande quantidade de moeda mexicana em prata, sendo refractários ao uso papel moeda. Usavam-na nos seus dotes, impostos e em ourivesaria, bem como na aquisição de búfalos para os frequentes estilos e outras cerimónias tradicionais.

Pouco antes da invasão de Timor em 1941/42 pelos australianos e holandeses ,seguidos pelos japoneses, o Banco Nacional Ultramarino remeteu para Lisboa várias toneladas de amoedado em prata. Contudo, muitos milhares de exemplares ficaram por Timor, agora mais para uso na joalharia, derretendo-se a prata ,e daí confeccionando-se novos e atraentes objectos ( luas, sóis, pulseiras, etc,).

Mesmo em1975, apesar de não serem vulgares, lá iam aparecendo algumas patacas não chanceladas, fazendo parte dos “tesouros” dos reinos, ou dos pecúlios familiares, servindo também como parte importante dos dotes de casamento ( barlaques).

Com a guerra civil e posterior invasão indonésia, houve uma fuga de muita população para o Timor Ocidental, onde mesmo junto à fronteira comerciantes de ocasião exploravam os aterrorizados refugiados, comprando ao preço que queriam muitos dos seus pertences que transportaram na fuga , nomeadamente libras em ouro e muitos quilogramas de patacas mexicanas.

A permanência das forças armadas indonésias - como em todas as guerras -trouxe muita morte, dor e desolação. Timor foi completamente saqueado e muitas das casas lulics, repositórios das tradições culturais e riquezas, foram vandalizadas, roubando o invasor seus valiosos espólios, deles fazendo parte moedas em ouro e prata. Voltando a mesma onda, agora mais destruidora, a acontecer em 1999 com a devastação do território por parte das forças de milícias pró - integração na Indonésia.

Hoje em dia, em Timor-Leste, a pataca mexicana, outrora relativamente vulgar, é muito escassa. Ainda há alguns timorenses que guardam as sobreviventes como raridades que o são.

De resto, as que aparecem no “Mercado dos Tais”, ou oferecidas pelos vendedores de rua, são, quase todas, falsificações em alpaca ou latão , quando muito, banhadas a prata.

Só tive na mão este exemplar que possuo, pois, não obstante ter estado vários anos em Timor, nunca lá encontrei igual. Por curiosidade este foi adquirido na Nova Zelândia há poucos anos.

RBF

2 comentários:

  1. eu tenho uma pulseira da época dos escravos ela foi feita a mão ela toda decorada com brasão de portugual eu gostaria de saber o valor pois esta pulseira tem passado gerações da mimha familia

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  2. eu gostaria de saber qual valor deste artefato

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