sábado, 9 de maio de 2009

Maubara et ses environs... (ler com sotaque 'franciú'! :-) )

Noutra 'entrada' falámos do artesanato de Maubara e já falámos, noutras ocasiões, do Vô Serra e da sua casa e seus café e ananazes nas montanhas de Maubara, concretamente no suco de Vatuvou --- será que o nome deriva de " 'vais tu ou vou eu' passear o cão?" :-)

Hoje vamos dar uma voltinha pela região. Ponto de partida: o forte de origem holandesa (?) que se situa junto à estrada. À sua frente estão as cabanas de venda de produtos do artesanato local e atrás a campa do antigo liurai local, José Nunes, o tal que pediu para ser sepultado à sombra da bandeira portuguesa (fizeram-lhe a vontade construindo uma campa com 'tejadilho' imitando a nossa bandeira). Depois de passar entre o forte e a campa vira-se à esquerda e começa-se a subir a montanha.

Vista aérea das montanhas de Maubara; ao centro e em baixo,
a foz da ribeira e a vila propriamente dita


Depois do casario da povoação, a estrada "esfuma-se" :-) junto à ribeira e temos de atravessar esta a vau. Não há problema porque nunca a vi com água... "Pero que la tiene" de vez em quando, "la tiene"!...
Chegados à outra margem retoma-se a estrada alcatroada que foi reabilitada há poucos anos. Ali perto está a antiga residência do administrador, numa posição privilegiada que alguns já pensaram em transformar em pousada/restaurante.
Esta estrada era a existente (não alcatroada, claro...) no tempo da administração portuguesa e, depois de "trepar" pela montanha acima --- café a quanto obrigas... ---, descia do outro lado até ao vale da ribeira de Loes, de onde continuava até Batugadé, fronteira com o Timor indonésio. Infelizmente a maior parte deste troço descendente quase que desapareceu "comido" pela vegetação. O que foi, em parte, resultado do abandono a que foi votado depois de os indonésios terem construído a estrada que, ao longo da costa norte, liga Maubara à ribeira de Loes e à fronteira.

Depois de uma subida relativamente íngreme em que as curvas "em cotovelo" de quase 360º são mais que muitas, chega-se ao terreiro onde está a bandeira do Suco de Vatuvou e, um pouco mais acima, à escola local. Aí ou se segue quase em frente para ir até ao Vô Serra ou se desvia para a direita para ir até ao cimo do monte local, o Guguleur. Aí se encontram as antenas da Timor Telecom.

O caminho desde a escola até às antenas é uma sucessão de paisagens lindas. Primeiro é o arvoredo denso de um lado e de outro constituído por pés de café e pelas 'madres-del-cacau' que os protegem do sol directo. Depois começam a vislumbrar e a ver-se as paisagens quer para a costa norte quer para a ribeira de Loes e mais além, até quase à fronteira.

Árvore da sumauma; notem-se os 'frutos' em três estádios diferentes de maturação: verdes, já semi-abertos e expondo a totalidade do seu recheio

Vista da estrada até às antenas; repare-se nas copas das "madres-del-cacau"

Entretanto chega-se à aldeia de Maubara-Lissa, onde se encontra a capela/gruta de Maria Auxiliadora.


De uma das vezes que fui para aqueles lados apareceu-me a certa altura, como que saída do nada, uma família que vinha caminhando por dentro do matagal, por caminhos só conhecidos pelas gentes da região. Um autêntico e literalmente falando "corta-mato". O pai vinha puxando o seu kuda onde vinha sentado o filho. Note-se que quem traz o saco de carga é... o pai e não o kuda...


Prosseguindo a caminho do alto da montanha passamos pela igreja de Samarapo. Ela era conhecida por ter o sino eventualmente mais antigo de Timor. Nele é bem visível a data de Abril de 1838.


Ora, por mais incrível que pareça, o sino foi roubado há cerca de dois anos. Consta que foi visto em Atambua... Ou o Estado timorense se mexe rapidamente ou então aparece um dia num antiquário de Bali ou, pior, é derretido...

Finalmente chegamos ao topo do monte Guguleur.

Coordenadas do topo do Guguleur e das antenas da TT

Vista em direcção à ribeira de Loes e à fronteira com a Indonésia;
a montanha que se vê a meio da foto é o já várias vezes referido Cailaco


Está na hora de regressarmos. O caminho agora já não tem grandes surpresas mas ficamos sempre deliciados quando a certa altura começamos a ver mais nitidamente não só a ilha indonésia em frente da região (Alor) como também trechos da costa norte de Timor Leste, nomeadamente a própria vila de Maubara, a lagoa do mesmo nome (para onde terão sido deitados vários corpos de timorenses massacrados pelas milícias em 1999) e o recortado da costa até Liquiçá "and beyond".


4 comentários:

  1. Muito interessante descrição, apenas mais uns pós…A base que apoia a imagem de Santa Maria Auxiliadora era forrada a patacas mexicanas coladas. Nenhuma, infelizmente, era marcada com a “Cruz de Cristo”. Sobre o sino, investiguei um pouco , chegando à conclusão ter sido fundido em Goa, pertencendo à Santa Caza da Misericórdia ( mesmo com z), tendo de lá vindo trazido provavelmente por missionários. Quanto ao furto, sabe-se quem foram os seus autores, desconheço, contudo, se foi recuperado.
    O sino encontrava-se fracturado, mas não deixa de ser uma óptima peça museológica.
    RBF

    ResponderEliminar
  2. Parabéns e obrigado por mais uma bela e completa reportagem desse lindo Timor, devidamente complementada com as já habituais úteis e oportunas achegas de RBF.

    Sinceramente, acho que o IPAD devia editar as viagens, fotos e curiosidades do Prof. Serra em livro, mandando uma boa dose de exemplares para Timor. Certamente que seria um grande contributo para os jovens timorenses conhecerem um pouco melhor o seu próprio país.

    Esses livros fariam parelha com os de RBF sobre os monumentos de Timor e eventualmente outros de outros autores (infelizmente poucos).

    ResponderEliminar
  3. Muito bem descrito o pais a historia.
    Depois de ler seus comentários e descrições fiquei desejoso de conhecer esse povo esse pais.
    Sobre a moeda de 8 reais do México independente, com cruz para circular em Timor é na realidade muito rara gostaria de ter uma na minha colecção mas nunca encontrei a venda.
    Parabéns pela qualidade da descrição.
    Agostinho Machado
    agmachado@hotmail.com

    ResponderEliminar